24 de abr. de 2011

Manual do Orientista - Dica nr 5

Dica no 5: O aprendizado com profissionais do esporte é muito valioso.

Além de aprender as técnicas de orientação com um técnico experiente, tive a oportunidade de treinar corrida de fundo com Ideberto de Paula Souza, professor de educação física que era fundista da Equipe da Força Aérea, campeão das Forças Armadas nos 5.000m, também com experiência no Campeonato Mundial de Corrida Através-Campo. Com ele aprendi na prática os princípios do treinamento físico aplicado à corrida de fundo, tendo um rápido desenvolvimento seguindo um programa de treinamento.

Depois de apenas dois meses de treinamento sistemático, além de ganhar minha primeira competição de orientação, entre atletas de mesmo nível técnico, consegui uma vaga na equipe de corrida rústica por meu desenvolvimento, sendo o 9o colocado numa prova de 8km com 60 participantes, sendo todos mais experientes em provas desse tipo. No ano seguinte eu fui o 3° colocado nessa prova, onde os dois melhores corredores da escola eram da minha turma e continuavam a chegar na frente nas competições que participamos.

Como meu objetivo principal era o Campeonato de Orientação das Forças Armadas, dali a dois anos, continuei treinando com a equipe de fundo, para ter o treinamento adequado e poder atingir o nível físico exigido no Campeonato Brasileiro.

Desde então sempre corri utilizando um programa de treinamento, com o auxílio de algum profissional de educação física com experiência em corrida de fundo. A ajuda desses profissionais foi muito importante para que eu melhorasse minha qualidade de corrida e tivesse sucesso na orientação, afinal, um dos fatores fundamentais para conseguir medalhas em competições de orientação é ter um bom condicionamento físico.

Por quinze anos trabalhei na Comissão de Desportos da Aeronáutica (CDA) com Neir Braga da Silva, um orientista com graduação em educação física e pós-graduação em Treinamento Desportivo. Ele melhorou as planilhas de treinamento que tínhamos recebido de Brasílico e depois aplicou as técnicas de periodização que aprendeu em sua pós-graduação. Treinamos juntos aplicando essas técnicas e aplicamos ao treinamento da equipe de orientação da Força Aérea, quando ele assumiu o trabalho de técnico de nossa equipe. Eu o ajudava com a formatação das planilhas e na adaptação de técnicas de avaliação e treinamento físico que recebíamos de outros técnicos. Eu experimentava de vez em quando métodos diferentes de treinadores europeus, que fui incorporando ao meu treinamento individual, mas a metodologia que aprendi com o Braga foi muito importante para os resultados positivos que obtive com o planejamento do treinamento.
Mesmo para aqueles que não têm interesse em competir na categoria Elite, é interessante seguir um planejamento para o treinamento de corrida, mesmo que seja para treinar apenas três vezes por semana, assim os resultados podem ser melhores, além de diminuir a possibilidade de sofrer lesões nas competições, em razão da adaptação feita no treinamento. É imprudente praticar atividade física apenas nos finais de semana, assim como praticar orientação apenas nas competições oficiais. Também é imprudente treinarmos sem a orientação de um profissional de educação física, pois um esforço inadequado pode levar a lesões musculares e um treinamento fraco não trará grandes benefícios. Se não tivermos oportunidade de treinar numa área de orientação regularmente, pelo menos precisamos treinar a corrida, preferencialmente em terreno variado. Com certeza isso garante um melhor condicionamento físico para podermos enfrentar com mais tranquilidade os desafios de uma competição de orientação.


13 de abr. de 2011

Manual do Orientista - Dica nr 4

Dica no 4: Valorize os orientistas antigos, eles têm muito para ensinar.








Após aprender os primeiros passos com um orientista experiente, Vitorino Calvi, meus primeiros técnicos na Equipe da Força Aérea foram Euro Brasílico Magalhães e Uderci Braga Silva. Com eles, além de aprender a importância de um treinamento bem programado, aprendi sobre a importância do trabalho em conjunto para o desenvolvimento do esporte.


Brasílico trabalhou na CDMB e foi o Diretor Técnico e traçador de percursos nos Campeonatos Mundiais Militares de 1983 e 1992. O mapeamento e apoio geral foram feitos por militares do Exército, mas ele foi responsável por ajustar os mapas às exigências do Comitê Técnico e traçar os percursos dentro do padrão previsto pelo CISM. A valorização do trabalho organizado e qualidade a técnica dos percursos foram marcantes em seu trabalho.

Uderci, que participou dos primeiros Campeonatos Brasileiros e também de Mundial Militar, foi o primeiro militar da Aeronáutica a ser campeão brasileiro das Forças Armadas. Com ele aprendi que a introdução da orientação no Brasil foi um trabalho conjunto das três Forças Armadas, através da CDMB, Comissão Desportiva Militar do Brasil, com seus precursores em cada Força. Os esforços individuais somaram-se e os eventos foram ocorrendo, o que possibilitou a continuação do esporte no meio militar até nossos dias. Ele trabalhou bastante em eventos de orientação organizados pela FAB, onde foi diretor de prova várias vezes. Foi um dos primeiros a adquirir licença do OCAD, permitindo a realização de vários mapas para os eventos da Academia da Força Aérea. Gostei muito de trabalhar com ele porque sempre me dava autonomia para eu realizar meu trabalho com os percursos, apoiando no que eu necessitava. Inclusive depois de ir para a reserva, ele participava como voluntário nos eventos da AFA, e mesmo depois que foi diagnosticado com câncer continuou com seu trabalho até algumas semanas antes de sua morte. Seu exemplo de humildade, competência e dedicação foi de grande inspiração para mim
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Além do trabalho da CDMB, uma iniciativa individual que possibilitou o início do trabalho de vários grupos foi a série de palestras promovidas por Leduc Fauth, funcionário do Ministério da Educação em Brasília, nos anos de 1986 e 1987, trazendo os suecos Göran Ölund e Ulf Levin, respectivamente, para clínicas de orientação em diversas cidades do país. Ele contou com o apoio de instituições que tinham alguma ligação com o esporte e dispunham de instalações adequadas para as palestras. Vários clubes de orientação, com a participação de militares e civis, tiveram início a partir dali. Tive a oportunidade de participar das duas clínicas realizadas na Academia da Força Aérea, que contava com mapas recentes na região, confeccionados para treinamento e para a prova de orientação do Campeonato Mundial de Pentatlo Aeronáutico, realizado no ano anterior. Em 1986 foi fundado o Clube de Orientação dos Cadetes da AFA.

Alguns anos depois, quando fui morar no Rio de Janeiro, participei do Floresta Clube de Orientação, que reunia militares das três Forças e civis, também fundado em 1986, após a clinica organizada pelo Leduc no Rio de Janeiro. Ali trabalhei bastante com José Ferreira de Barros, militar da Marinha, que de 1990 a 1992, esteve à frente da organização de eventos locais com mais de 200 participantes cada, sendo a maioria de novatos. Após sua mudança para Brasília, Barros foi um dos responsáveis pelo Campeonato das Forças Armadas por mais de dez anos, e ainda organizou eventos de orientação para crianças e iniciantes.

Um orientista da geração anterior à minha, com quem tive bastante contato no Rio de Janeiro foi Ambrózio Gonçalves de Souza, conhecido por montar percursos muito difíceis. Na verdade ele reproduzia o estilo de traçado de percursos comum nas competições do Exército nas décadas de 70 e 80. Eu sempre fui adepto ao estilo que aprendi com Brasílico e outros traçadores da FAB e CDMB. Apesar do estilo diferente, sempre tive bom relacionamento com o Ambrózio, que apesar do conservadorismo, aos poucos ia incorporando as novidades e novas tecnologias da orientação internacional. Aprendi com ele a importância da disponibilidade para a montagem de treinamentos e competições, que ele tinha tanto na ativa quanto na reserva. Muitos costumam criticar os trabalhos feitos da maneira antiga, mas poucos são os que se dispõe a trabalhar junto e tentar inovar aos poucos, como eu procurava fazer. Quando via algo que poderia ser mudado, eu conversava com o organizador sobre o assunto, mas sempre valorizava e elogiava o esforço e o trabalho geral realizado, pois sei como é difícil nos dedicarmos à organização de eventos, por mais simples que pareçam ser.

Também trabalhei com Sérgio Gonçalves Brito, militar que foi técnico da Equipe do Exército e do Brasil, instrutor na Escola de Educação Física do Exército, organizador de eventos, mapeador e diretor de clube de orientação. Ele trabalhou bastante para o desenvolvimento da orientação nas cidades por onde passou. Ele foi meu instrutor quando fiz o curso da EsEFEx em 1996, e eu o ajudei na organização de algumas competições, na época em que estávamos começando a fazer mapas com auxílio de computador. Após ir para a reserva, como coronel, ele passou a realizar um trabalho muito bom com crianças do ensino fundamental na cidade de Miguel Pereira-RJ. Ele foi chamado para ser o gerente da competição de orientação dos 5º Jogos Mundiais Militares, no Rio de Janeiro em 2011.

É bom conhecermos orientistas como esses e outros mais, que deram grande contribuição para o desenvolvimento do esporte, e seguirmos o mesmo exemplo, cooperando sempre que pudermos, principalmente na organização de eventos. Participar dos eventos é muito bom, mas para que estes aconteçam é necessário o trabalho de muitas pessoas. Na época em que competia, todo ano eu deixava de correr pelo menos numa prova do campeonato estadual para trabalhar na organização, e várias vezes trabalhei em eventos de nível nacional. É assim que é feita a história do esporte: tanto com os que fazem resultados como atletas quanto os que trabalham na organização dos eventos.
 

5 de abr. de 2011

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DOMINGO, 27 DE MARÇO DE 2011

MEDITERRANEAN OPEN CHAMPIONSHIP: VITÓRIAS DE AUDUN WELTZIEN E ANNIKA BILLSTAM




Em Itália, na região de Palermo (Sicília), correu-se este fim-de-semana mais uma edição do MOC – Mediterranean Open Championship Orienteering. Um evento que marca o regresso às lides da Orientação do (agora) número três do Mundo, o suiço Daniel Hubmann.

SPRING CUP 2011: OLAV LUNDANES E SIGNE SØES CONFIRMAM FAVORITISMO




Disputada este fim-de-semana, a 21ª edição da Spring Cup dominou parte das atenções do panorama internacional

3 de abr. de 2011

Manual do Orientista - Dica nr 3

Dica no 3: Tenha objetivos claros em vista.

Aos 16 anos de idade fui para a Escola de Especialistas de Aeronáutica (EEAr). Logo no início do curso fizeram testes para selecionar os que já praticavam algum esporte, visando a competição interna. Eu tinha o interesse de praticar algum esporte para desenvolver o condicionamento físico, mas inicialmente não fui selecionado para nenhuma modalidade. Eu achava interessante como alguns colegas corriam no gramado em volta da pista de atletismo, e certo dia experimentei fazer algumas voltas atrás de um colega. Quando ele parou, também parei e ficamos conversando. Ele já corria fazia alguns anos, tinha sido selecionado para a equipe de corrida rústica e comentou que eu tinha jeito de corredor de fundo. Dois dias depois, em nosso horário de educação física, chamaram 10 voluntários que gostassem de correr para participar de uma nova modalidade. Eu não sabia o que era, mas como estava interessado em aprender a correr, levantei logo a mão.
 

O grupo foi levado para uma apresentação sobre orientação com Vitorino Calvi, que participava da equipe da Força Aérea desde 1971 e naquele ano era técnico da equipe. Quando ele mostrou o que era a orientação, com algumas fotos dos Campeonatos Brasileiros e dos Campeonatos Mundiais Militares que participou, visualizei que aquele era um esporte no qual eu poderia ir bem se tivesse dedicação. Ele disse que para praticar orientação era necessário correr bem e ser esperto. Pensei comigo: “Eu sou inteligente, só preciso treinar para correr melhor”.


Desde aquele dia coloquei como objetivo pessoal fazer parte da Equipe da Força Aérea e participar do Campeonato Mundial. Não foi por acaso que fui o campeão individual na 1a competição de orientação da EEAr em 1984 – este era meu objetivo inicial. E outros resultados positivos também vieram, fruto de bastante tempo de preparação com objetivos específicos definidos. Além de fazer parte da Equipe da Força Aérea, fui campeão das Forças Armadas três vezes, fui Campeão Sul-Americano duas vezes e cheguei a competir em sete Campeonatos Mundiais Militares de Orientação. A dedicação ao treinamento foi fundamental para atingir esses objetivos.

Ter objetivos claros nos dá mais motivação para encarar um treinamento sério e puxado, impedindo que desanimemos por qualquer motivo. Quando acabava uma competição, eu começava a treinar para a próxima. Quando terminava de fazer um mapa de uma área nova, começava a procurar outro local para mapear, com nova possibilidade de competição e treinamento. Quando termino um trabalho qualquer, fico pensando nas possibilidades de melhoria para o futuro.

Em 2005 eu fui a Recife para dar aula num curso de uma semana para aplicadores de teste de avaliação física da CDA. Em um dos dias sai para correr, saindo da Base Aérea até o morro dos Guararapes, que fica em uma área do Exército onde tem um mirante com uma Bandeira Nacional. Na subida fui surpreendido por uma chuva rápida, que não amenizou o calor, parecia que a chuva era morna. Chegando ao alto, apesar do tempo parcialmente nublado, pude visualizar um lindo horizonte, com praias de Norte a Sul e o Oceano a Leste. No início da corrida não havia nada interessante, apenas casas simples, alguns prédios, ruas com terra e barro, mas ao chegar ao alto pude contemplar uma paisagem completamente diferente. Foi daí que tirei esta frase, que usei em algumas aulas dali em diante: “O horizonte está na altura dos nossos olhos, por isso precisamos subir a um lugar mais alto para ver as lindas paisagens que não podemos ver de baixo, e para ver que podemos ir muito mais além do que está à nossa volta”.

Nossa principal limitação encontra-se nos objetivos que traçamos, não nos meios de que dispomos para alcançá-los. Primeiro definimos onde queremos chegar, depois analisamos como fazer para chegar lá. Nosso horizonte está sempre à altura dos nossos olhos, por isso precisamos subir a um local mais alto para ver mais longe. A bússola sempre aponta para o norte, nós é que escolhemos o destino a seguir.


30 de mar. de 2011

Manual do Orientista - Dica nr 2

Dica no 2: Comece aprendendo as técnicas básicas.

Antes de participar de uma competição de orientação é importante aprender alguns fundamentos do esporte, como orientar um mapa, comparação mapa-terreno e conhecer os principais símbolos. É necessário a instrução teórica básica e fazer treinamentos práticos sem avaliação de tempo. O conhecimento de todos os símbolos vem com a prática, usando vários mapas diferentes. Mesmo aqueles com habilidades inatas para o sucesso no esporte precisam aprender as técnicas básicas.

É necessário adquirir confiança antes de começar a participar de competições. Eu participei de minha primeira competição após dois meses de treinamento, com duas sessões semanais de orientação e quatro de treinamento de corrida. Este tempo foi suficiente para conhecer as técnicas básicas e ter auto-confiança para executar um percurso de competição. Em alguns clubes de orientação o treinamento para iniciantes é feito de maneira desorganizada, eventualmente apenas nas competições. O ideal é que o aprendizado seja progressivo, sedimentando as técnicas aprendidas em sequência (veja o exemplo da Orientação Passo a Passo no Anexo A).

É importante ter em mente essa sequência de técnicas no trabalho com iniciantes, pois cada um aprende de maneira diferente. Uma pessoa pode levar bastante tempo para aprender uma técnica, enquanto outra progride de um nível para outro rapidamente. O treinador precisa ter paciência e não tentar forçar ninguém a aprender mais rápido do que pode! Vários orientistas desistiram de competir depois serem colocados em provas mais difíceis do que o nível de treinamento que já haviam experimentado.

Ao ensinar iniciantes no esporte eu começo sempre pela técnica de comparação entre mapa e terreno, é aplico um exercício prático de orientação do mapa sem bússola. Neste mesmo exercício eu ensino como manusear o mapa e orientá-lo ao terreno com o uso do polegar para marcar onde está. Esta é uma técnica que aprendemos na primeira atividade prática e usamos em todas as outras vezes que praticamos orientação. O aprendizado das outras técnicas vem depois, de acordo com as oportunidades e disponibilidade dos recursos, de preferência seguindo uma evolução gradual.

É importante também continuar treinando as técnicas já aprendidas ao passar para os níveis seguintes. Os iniciantes têm necessidades psicológicas básicas ligadas ao companheirismo e autoconfiança. O treinador precisa ver que os amigos podem estar juntos mesmo que suas habilidades de orientação sejam um pouco diferentes. É importante passar por todos os níveis de aprendizado, um de cada vez, passando aos poucos para níveis de percurso mais difíceis em competição, de acordo com o desenvolvimento técnico e físico.
 
ANEXO A
Aprendendo Orientação Passo a Passo
(adaptação do livro de Gunnar Hasselstrand)

Nível básico - Compreender o mapa. Orientar o mapa. Ambientar-se com a floresta.
Aprendizado dos elementos básicos da orientação, partindo do ambiente escolar, com mapas simples, onde se aprende o manuseio do mapa orientado. Aos poucos é feita a transição para o ambiente mais comum da orientação, como parques e bosques.

Nível 1 - Orientar o mapa usando o terreno.
A - Interpretar as cores do mapa e símbolos mais usados
B - Orientação ao longo de uma trilha.
C - Orientação de uma trilha para outra.

Nível 2
D - Ler os objetos ao longo dos caminhos. Pegar pontos de controle fora dos caminhos.
E - Atalhos.
F - Orientação em pernadas curtas definindo características simples.

Nível 3
G - Fazendo escolhas de rotas mais simples.
H - Orientação em pernadas longas definindo características mais difíceis.
I - Orientação fina em pernadas curtas.

Nível 4
K - Compreendendo o relevo (curvas de nível).
L - Orientar-se usando as grandes colinas e reentrâncias significativas.
M - Ler o relevo em detalhes.

Nível 5
Checar os pontos ao longo da rota. Interpretar o relevo em velocidade da competição. Usando as técnicas corretas com mudanças nas dificuldades.

Nível 6
Pernadas e distâncias mais longas. Definir características e pontos de ataque. Pontos de controle difíceis.

A sequência sugerida acima, apoiada pela Federação Internacional de Orientação, define linhas gerais para o desenvolvimento do trabalho com novatos na orientação. A ordem das técnicas abordadas pode ser alterada, de acordo com a conveniência ou disponibilidade do técnico que prepara o treinamento, mas é aconselhável que seja ensinado o conteúdo mínimo colocado aqui. 

Os jovens orientistas precisam adquirir autoconfiança a cada nível, e passarem progressivamente aos níveis mais difíceis. Mesmo quem treina por conta própria, sem ter um clube de orientação que o apóie, precisa buscar o treinamento das técnicas que ainda não conhece, seguindo estas sugestões. Às vezes não contamos com uma estrutura de apoio adequada para realizar um treinamento tão completo. Por vários anos eu treinei sem ter um clube de orientação, mas meu aprendizado básico seguiu passos semelhantes ao sugerido. Esse modelo de aprendizado sistemático é muito mais eficiente que a simples execução de percursos em competições, mesmo que estes sejam direcionados a iniciantes.

Nota: No livro citado há mais detalhes sobre o tipo de treinamento aplicado a cada nível.

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24 de mar. de 2011

Manual do Orientista - Dica nr 1

1a PARTE
DICAS PARA ORIENTISTAS NOVATOS

Dica no 1: Pratique esporte por interesse pessoal e habilidade natural.

A primeira grande pergunta ao escolhermos um esporte é: Por quê? 

Em nosso caso: Por que ser um orientista? 

Eu acredito que cada pessoa tenha habilidade natural pelo menos para um tipo de esporte. Cada pessoa é diferente, mas possui habilidades específicas que se ajustam a algum esporte em especial. Para os que acreditam que nossa formação acontece por acaso, esta ideia é válida, devido à grande variedade de genes e infinitas possibilidades. Mas não creio no acaso, prefiro crer no destino, que é feito a partir de nossas escolhas. Não conheci a orientação por acaso, como aparentemente ocorreu, tive a oportunidade de conhecer num momento apropriado, e então escolhi praticar esse esporte. Antes disso tive várias tentativas frustradas com diversos esportes coletivos. Eu até gostava de futebol, mas tinha dificuldade de jogar no meio de garotos maiores. Vôlei e basquete eram um desastre para mim. Com a orientação, identifiquei-me imediatamente e logo nas primeiras atividades tive grande facilidade na prática. 

Nem todos têm facilidade para aprender as técnicas de orientação ou sentem-se bem correndo na floresta, mas isso acontece com frequência entre os orientistas. A orientação tem o diferencial de ser praticada preferencialmente em áreas junto à natureza, em florestas e campos. Eu gosto muito de correr longas distâncias, mas fico muito mais interessado quando faço isso com um mapa na mão, em áreas com terreno e vegetação variados, passando por lindas paisagens, quase sempre presentes. 

Carlos Alberto Alves foi um exemplo de talento natural para corrida de fundo: ele fez 4.000m em seu primeiro teste de 12min (em minha melhor fase de treinamento só cheguei a 3.870m nos 12 min). Depois de passar a ser atleta, entrou para a Força Aérea e ganhou diversas competições nacionais
Em 1976 foi o segundo colocado na prova de 10.000m com 29 minutos e 17 segundos, no Campeonato Mundial Militar de Atletismo, realizado no Rio de Janeiro, batendo o recorde brasileiro das Forças Armadas, que permanece até hoje. 
Ele só não teve uma carreira internacional mais expressiva por falta de incentivo, que era difícil de ser conseguido na década de 70, quando estava em seu auge de desempenho. Quando o conheci, no final da década de 80, ele ainda corria muito mais que eu. 

Certa vez, após ter parado de competir nas pistas de atletismo, foi colocado para treinar com a equipe de orientação. Apesar de ser um atleta dedicado, em um dos treinamentos saiu do mapa e só conseguiu voltar para a chegada duas horas depois. Ele desistiu da orientação depois do campeonato daquele ano, mas sempre elogiava meus bons resultados nas competições, dizendo que orientação não é tão fácil como corrida de fundo.

Cada esporte tem suas características próprias, só sendo possível comparar como será nosso desempenho quando experimentamos efetivamente. Muitas pessoas desprezam as oportunidades de praticar esportes, deixando de lado o potencial individual. Outros abandonam o esporte em função da carreira profissional. Nossa carreira profissional ou esportiva depende de nossas habilidades e das escolhas que fazemos, ou seja, das oportunidades que aproveitamos.
A emoção faz parte do esporte, e uma simples competição escolar pode ser muito emocionante e pode ter um vulto grande quando envolve cerca de duas mil pessoas. Foi assim quando iniciei a praticar esporte, com o incentivo de uma competição escolar, onde havia apenas dois meses para treinar até a competição, por isso o treinamento de corrida era diário. A competição entre as quatro turmas existentes era baseada na colocação dos atletas em cada uma das 10 modalidades existentes. 

Eu fui o campeão individual naquele primeira competição de orientação, porém minha equipe terminou em terceiro lugar. No último dia eu participei da corrida rústica e ganhamos esta modalidade, pois tivemos os dois primeiros, Ricardo Alves e Jobson, o Marostega em 5°, eu em 9° e o Marçal em 10°, sendo que os cinco melhores de cada equipe somavam pontos. A disputa estava acirrada com a turma que ganhou a orientação e outras provas. Na premiação final foi anunciado que uma luta do judô que havia sido levada para o júri técnico foi dada à outra turma e por isso ela venceu a competição geral por diferença de um ponto.

Recordo-me que o desapontamento tomou conta de todos em minha turma e eu não pude conter as lágrimas ao ver outros colegas e até os sargentos que nos incentivaram chorarem. Logo depois desse momento, o discurso do Sargento Ávila para os atletas foi que a maioria continuaria treinando para a competição entre as escolas de sargentos e que no ano seguinte iríamos ganhar todas as modalidades. Ainda não havia competição de orientação entre as escolas, mas eu continuei treinando todos os dias com a equipe de corrida de fundo.
  
Para melhorar a equipe de orientação eu chamei quatro colegas de minha especialidade, com quem ficava ao lado no alojamento e nas aulas, para substituírem os que não foram bem na orientação. Treinávamos orientação apenas no horário de educação física, mas eles já faziam parte da equipe de corrida rústica e não tiveram dificuldade com a orientação, com exceção de um que desistiu após ser atacado por abelhas e descobrir que era alérgico. 


No 
ano seguinte eu venci novamente a disputa individual e ganhamos a prova de orientação por equipe, colocando os 4 atletas entre os 5 primeiros, e ainda fui o 3º colocado na corrida de 8km. A turma ganhou as dez modalidades, e no dia do encerramento, após recebermos o troféu geral, a turma toda desfilou com o comandante do esquadrão levando aquele troféu à frente, e depois mais um aluno de cada modalidade com seu troféu, eu levando o da orientação. Assim aprendemos a perder e a ganhar no esporte, e aprendemos sobre a importância da cooperação para atingir os objetivos comuns. 
 
Na competição entre as escolas de sargentos de 1985, na Escola de Sargentos das Armas, eu conheci uma lenda do esporte militar: o Cabo Bandeira, que já era campeão brasileiro e mundial de pentatlo militar. Ele venceu várias provas da competição de atletismo e natação, venceu também a corrida de 8km, correndo descalço como seu costume, o Cabo Silva foi segundo e meu colega Jobson foi o terceiro; eu fui o sexto colocado, passando meu colega Ricardo Alves na ladeira longa que havia no percurso. Alguns anos depois tive a oportunidade de assistir uma competição de pentatlo militar e ver o Bandeira em ação: era realmente impressionante sua performance. Coincidiu de sermos agraciados com a Medalha do Mérito Desportivo Militar na mesma cerimônia, na 2ª edição desta condecoração, quando os primeiros atletas militares foram agraciados, entre eles meus colegas Abcélvio Rodrigues, que era atleta olímpico do salto triplo e Laurênio Beserra, que era maratonista internacional, ambos com várias medalhas nos campeonatos da Forças Armadas. 

Foi um grande privilégio para um orientista, ser lembrado entre atletas militares tão importantes a nível nacional e internacional, vendo que a orientação teve importância entre outros esportes para os militares, pois eu estava ali ao lado de campeões internacionais para receber a condecoração. Lembrando que, em relação a esses atletas de destaque em diferentes modalidades, temos em comum a dedicação ao esporte desde o início da carreira militar.
 
 

 
Além da dedicação, é importante que o esporte seja praticado com prazer, e para a grande maioria dos orientistas a orientação é uma verdadeira paixão. Este é o principal porquê de praticarmos o esporte. Pode haver muitas outras razões secundárias, mas a paixão é como uma centelha interna, que dá início ao processo de sucesso na modalidade. 
 
O sucesso efetivo vai depender de nosso grau de comprometimento, de acordo com nossos objetivos. O comprometimento está relacionado ao nível de importância da atividade que realizamos. Para o iniciante é um, para o atleta de elite é outro muito diferente. Esse comprometimento é um forte desejo de atingir um objetivo – um atleta precisa ser determinado e ter uma atitude positiva para completar o trabalho necessário para atingir sua meta. Mas em todas as situações, o orientista trabalha com seu coração e tem uma forte motivação interior – outra definição para essa paixão.


20 de mar. de 2011

Manual do Orientista - INTRODUÇÃO





INTRODUÇÃO



O objetivo deste livro é disponibilizar parte do conhecimento técnico já difundido pelas federações internacionais, adaptando aquilo que vem sendo aplicado nos treinamentos aqui no Brasil. Procuro compartilhar o conhecimento que adquiri ao longo de 30 anos como orientista da categoria Elite.

Desde o primeiro contato com a orientação, percebi que era um esporte interessante para mim e sonhei com a possibilidade de um dia estar entre os melhores e representar o Brasil em competições na Europa. Desde então, passei a me dedicar em aprender as técnicas e desenvolver a capacidade de corrida para competição de alto nível.

Com esses objetivos em mente, além de ser um atleta de destaque, também trabalhei para o desenvolvimento do esporte. No início de minha carreira de atleta tive o apoio de orientistas experientes, que ensinaram as técnicas básicas, e de técnicos de atletismo que ensinaram a usar um programa de treinamento de corrida, mas as oportunidades de competição eram poucas. Foi quando passei a trabalhar na organização de provas abertas ao público alvo da orientação, várias delas com mais de 200 participantes. Minha principal satisfação pessoal foi a de presenciar cada vez mais orientistas satisfeitos com os mapas e percursos que preparei.

Recentemente, tenho aprendido bastante ao ensinar jovens que estão iniciando no esporte. Senti a necessidade de livros para os novatos na orientação, o que me motivou a preparar um manual mostrando aos jovens orientistas algumas técnicas interessantes que podem ser utilizadas no treinamento individual.

Certo dia, enquanto preparava um treinamento correndo, tive a ideia de escrever este livro em primeira pessoa, que possibilita a colocação de várias experiências pessoais, e de uma maneira informal – em forma de dicas.

As dicas estão numeradas para facilitar a leitura, mas não há necessidade de serem lidas na sequência dada. Quem quiser, pode ler em outra ordem, de acordo com o interesse. O manual está dividido em duas partes, a primeira voltada para os orientistas novatos. Cada dica é baseada no conhecimento que adquiri em experiências pessoais, de várias palestras e leitura de textos de diversos autores, com histórias interessantes que presenciei. Os orientistas encontrarão dicas interessantes, com relatos ocorridos durante meu aprendizado em treinamentos, em competições nacionais e internacionais. Há também citações de algumas regras essenciais para todos os orientistas.

Existe algum segredo para ser um campeão? Não. Bons resultados estão sempre associados a um bom condicionamento físico, técnico e mental. Basta dedicação para aprender e apreender as técnicas, desenvolvendo a capacidade de corrida para competição de alto nível. As dicas da segunda parte estão voltadas para aqueles que têm interesse em treinar mais e melhorar seus resultados nas competições, ações que podem tornar mais agradável a prática deste esporte fantástico.

Apesar de conter vários termos técnicos do esporte, a linguagem do livro é simples e direta.

Espero que gostem.
 

O livro também possui alguns anexos, citados ao longo dos textos, entre eles possui um glossário.

ANEXO B - GLOSSÁRIO

Termos diferentes usados pelos orientistas:

Árvore proeminente: Árvore isolada ou totalmente distinta das demais à sua volta.

Atravancar: É o mesmo que derrubar o mato no peito, pegar uma rota ruim, orientar-se mal, perder muito tempo.

Azimute: Direção a seguir, indicada pela bússola a partir do ângulo entre a direção marcada no mapa e o norte magnético.

Bosque: Porção limitada de vegetação com árvores, com limites distintos, diferente de uma área de grande extensão com árvores semelhantes, que chamamos de floresta.

Buraco: Escavação natural ou feita pelo homem, com tamanho mínimo de 1m de profundidade e 2m de largura. O prisma deve ser colocado fora do buraco, evitando ficar escondido.

Carneiro: Figura mitológica entre os orientistas, que apesar de vista por muitos, não pode ser comprovada cientificamente. Representa aquele que vai atrás de outro orientista, mesmo não sabendo exatamente onde está indo (ato de encarneirar).

Chafurdar: Significa afundar num pântano, mas é o mesmo que se perder durante o percurso.

Colo: Posição destacada entre duas elevações, distinta no mapa e no terreno, que lembra o colo materno.

Contra azimute: Direção indicada pela bússola oposta à desejada, que leva o orientista para o ignoto.

Dar varada: errar um ponto, passando muito do mesmo, com a convicção de que está indo na direção certa.

Dog leg: Situação em que o acesso ao ponto de controle é o mesmo tanto para quem chega como para quem sai dele, geralmente por falta de criatividade do traçador de percursos.

Equidistância: É a diferença de altura entre as curvas de nível. Também chamada de intervalo de curva de nível.

Espigão: Figura do relevo que se apresenta como linha divisora de águas ou parte alta e alongada entre duas encostas.

Esporão: Pequena saliência no terreno, que se destaca do terreno em volta. A figura inversa do talvegue.

Ignoto: Posição no terreno completamente desconhecida para o orientista que saiu da rota sem perceber.

Objeto especial: Qualquer objeto feito pelo homem, que possa ser mapeado e usado como ponto de controle, mesmo aquele criado especialmente para um evento de orientação.

Orientista: Praticante do esporte orientação, geralmente com inteligência privilegiada, mas desprovido de apego à autoimagem, principalmente em ocasiões onde há muita lama no percurso.

Patrulha: Coletivo de orientistas quando estão próximos, na mesma rota e à procura dos mesmos pontos.

Penhasco: Acidente íngreme do relevo, uma face de pedra intransponível que deve ser evitada pelos orientistas, por questão de segurança.

Piau: Grito de guerra dos orientistas brasileiros, utilizado para chamar os companheiros na floresta, vem do nome de um peixe brigador.

Ponto flutuante: (bingo controlQuando um ponto de controle não tem ponto de ataque nítido, nem linha de segurança, nem está num objeto distinto. Deve ser evitado pelo traçador porque a imprecisão pode prejudicar os atletas, devido ao fator sorte.

Prisma: Objeto com três faces nas cores branca e laranja, que deve estar em objeto distinto, previsto no mapa no centro da circunferência, e visível na posição indicada no cartão de descrição, satisfazendo a todas essas condições.

Ravina: Local por onde desce a água da chuva, formando uma vala profunda ou erosão grande.

Sinalética: Símbolos do cartão de descrição dos pontos de controle. Termo originalmente utilizado em Portugal.

Talvegue: Pequena reentrância do terreno, geralmente nítida em relação ao terreno em volta.

Zerador: Diz a lenda que nas primeiras seletivas militares do Brasil, para comparar os resultados de vários percursos, atribuía-se “zero” ao primeiro colocado e os demais recebiam pontuação de acordo com a diferença de tempo para o “zerador”.