Dica nº 77: Nunca subestime sua capacidade.
“Uma vez que aceitamos nossos limites, podemos ir além deles” (Albert Einstein). O primeiro Campeonato das Forças Armadas que participei aconteceu em Lages - SC, no mês de maio de 1986, com chuva, lama e bastante frio. Tudo era novidade: eu era o atleta mais novo da competição, ainda com 18 anos de idade, não havia feito nem uma dúzia de treinamentos em mapas de orientação padronizados, era a primeira competição com chuva e frio, não conhecia nenhum dos adversários. Entretanto, não estava preocupado com as dificuldades em si, estava apenas concentrado em enfrentar o desafio dos percursos e fazer o melhor possível. Tinha feito uma boa preparação física e técnica nos dois anos anteriores para poder chegar ali, e não tinha nada a perder. Para minha surpresa, descobri que tinha facilidade de correr em áreas reflorestadas, predominantemente brancas no mapa, em percurso com boas opções de rota e desenvolver um bom ritmo de corrida no frio. Naquela época os atletas antigos da Equipe do Exército não gostavam daquele tipo de área, pois os bons corredores começaram a se destacar, alguns novos também como o Novais, Machado, Brandão e Ozeli. A temperatura estava abaixo de 10º C, ficando difícil para usar o picotador, mas no primeiro percurso achei todos os pontos sem dificuldade. Minha surpresa só não foi maior que a do Deichmann, atleta experiente do Exército que havia saído 6min antes, quando cheguei junto dele para picotar o penúltimo ponto, saindo em disparada para o último ponto e para a chegada num campo aberto. Fechei o percurso em segundo lugar, 2min depois do Barros, da Marinha, e apenas 11seg na frente do Ozeli, do Exército.
O pódio com um atleta de cada Força deixou de ser uma cena rara a partir desse dia.
No dia seguinte o percurso era um pouco menor, mas apesar de alcançar o Mello, veterano do exército que saíra 3min antes, logo no ponto 3, tive dificuldade no ponto 5 que estava “escondido” numa área de vegetação rasteira. Ainda não tinha muita experiência e passei direto pela área do ponto, fiquei com dúvida e perdi muito tempo, depois de ir adiante e voltar para achar o ponto. Se tivesse parado e esperado o Mello achar o ponto, chegando junto com ele até o final, teria feito o segundo tempo daquela pista e seria o campeão daquele ano. Foi uma questão de sorte, que não descartava meu potencial. Mas na maioria das vezes, o fator sorte na orientação é contrário aos bons resultados, principalmente naquela época, quando os mapas não eram tão bons quanto agora.
Cada percurso é diferente, mas todos os competidores enfrentam dificuldades semelhantes, com algumas variações de acordo com a escolha de rota. Muitas vezes a escolha de rota para um único ponto faz a diferença entre ser 1º e o 9º colocado. O Uderci, meu técnico naquele ano, costumava dizer: “Quem não erra, ganha.” A vantagem dos mais experientes está apenas em errar menos, devido à grande quantidade de percursos realizados, mas os novatos têm as mesmas chances de fechar com um tempo bom e vencer os percursos.
Na orientação, nosso objetivo deve ser o de fazer o melhor possível no percurso independente das circunstâncias. É um desafio pessoal diante de uma área desconhecida. Você pode realizar uma performance ótima, perto de sua capacidade máxima, mas mesmo assim não ser o campeão. Mas você ainda é um vencedor se fizer o melhor que puder. Para ser campeão depende da combinação dos resultados dos outros, mas quando chegar ao final, após ter passado por todos os pontos sem errar, correndo o máximo possível, já se sabe que o resultado será ótimo.
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