10 de fev. de 2026

Manual do Orientista - Dica nr 100

 Dica nº 100: Nunca desista!

Em 1990 participei dos Cinco Dias de Orientação da Suécia. Fui o único brasileiro a participar naquele ano, e fiz a Clínica para Atletas de Elite do O-Ringen. Um fato curioso foi que, além de participar dos 3 dias da clínica, ainda corri na categoria H21E, provavelmente o primeiro brasileiro a competir nesta categoria na história dessa competição, onde todos os percursos tinham mais de 10km. Apesar do bom preparo físico, o 5º dia de competição era na realidade o 8º dia de percursos seguidos! Nos quatro percursos anteriores eu tive as dificuldades normais dos percursos, com alguns erros não muito grandes, sendo que nos primeiros dias tinha feito tempos próximos a 1h 51min, com ritmo médio de 8 minutos por quilômetro.

Naquele último dia a ordem de partida era de acordo com o resultado dos dias anteriores, por isso fui um dos últimos a largar. Aconteceu que no meio do percurso comecei a sentir muito cansaço físico e mental. Eu partira na frente de um britânico (que foi o último a partir) que me alcançou lá pelo ponto 6, mas não tive disposição para dar combate, estava tão cansado que desisti de seguir com ele. Lembro-me que sentia o calor daquela tarde e que a sensação de cansaço era realmente grande lá pelo décimo ponto de controle. Depois de pegar o ponto 11, o ponto 12 ficava a cerca de 200m, tirei um azimute rápido na bússola de dedo, mas saí mais à esquerda do ponto. Encontrei um prisma e notei logo que não era o meu, fiquei então girando em círculos, tentando achar meu prisma, o que não foi a melhor tática. Devido ao cansaço, já estava sentindo dificuldade para raciocinar com clareza. Depois de muito tempo, resolvi voltar ao ponto anterior; e por incrível que pareça, ainda reconheci o caminho de volta! Quando voltei ao ponto 11, olhei para o relógio: havia passado mais de 30 minutos, só naquele erro!  Já comentei que voltar à referência anterior sempre é a melhor opção quando erramos o azimute, e gastei muito tempo por não fazer isso logo, para aprender esta lição.  Tirei o azimute novamente e fui caminhando na direção certa – e bati direto do prisma correto! Depois disso ainda havia uma pernada com mais de 1 km, mas fiz com cuidado, procurando as referências do terreno sem errar. Depois dessa pernada já podia ouvir os alto-falantes da área de chegada, e foi uma sensação de grande alívio quando marquei o último ponto de controle e entrei pelo do funil de chegada, para fechar o percurso com 2h 44min, dentro do limite permitido de 3 horas! 

Nos dias anteriores o que impressionava era a grande multidão em volta da chegada, com muito barulho e o som dos alto-falantes. Naquele ano havia cerca de 20.000 competidores em cada dia. Mas aquela chegada foi bem diferente, havia poucas pessoas e o pessoal da organização já estava desmontando tudo. Quando entrei no funil de chegada, após marcar o último ponto, o único som que se ouvia era o de martelos despregando coisas, mas que foi substituído por palmas e alguns gritos de saudação, quando o alto-falante anunciou a aproximação de um orientista em especial: o último a chegar de todo o evento! 

Foi a maior emoção que já senti em toda minha carreira de atleta! Já passei por grandes momentos, como participar da partida em massa no Jukola Relay, ou de chegar ao final de alguns percursos “zerando a pista” com a torcida da equipe gritando de felicidade. Quando a gente “zera” um percurso, a adrenalina está a mil, e a alegria é muito grande, mas quando se está esgotado, aquelas palmas são a compensação daquele orientista cujo único objetivo era completar seu percurso, e a satisfação é tão grande quanto a de ter sido campeão! Eu sempre me emociono quando lembro daquele momento, mais do que qualquer outro.

Um jornalista da revista Skogssport, da Federação Sueca de Orientação, tirou minha foto e escreveu um pequeno artigo sobre o final do evento. Ele contou no artigo que naquela tarde ficou à espera do último atleta daquele evento. Quando só faltava a minha chegada, ele perguntou ao árbitro de chegada se eu desistiria ou se estaria com todos os pontos marcados corretamente. “Ele nunca desiste” – disse o árbitro – observando os resultados anteriores daquela semana. Quando cheguei, às 16h e 21min, todos os picotes estavam corretos, eu completara todos os percursos, e o evento de orientação no O-Ringen 5 Days de 1990 estava encerrado.

 

Meus amigos suecos deram os parabéns por eu ter sido o 65° colocado na categoria H21E do O-Ringen, dizendo que não fui o último dos 90 que competiram, pois até o Jörgen Martensson havia desistido e não completou aquela competição. 

A principal lição que aprendi foi esta: que é muito importante não desistir e completar um percurso, pois estamos vencendo desafios que são muito difíceis. Além disso, estamos vencendo nossos próprios limites! 

 

 

Manual do Orientista - Dica nr 99

 Dica nº  99: Orientação é um estilo de vida. 

Para muitos esportistas, o envolvimento com o esporte incorpora tantos hábitos que passa a fazer parte do estilo de vida. Observei muitos atletas da Elite na Europa que incorporaram esta realidade. Para muitos deles, o envolvimento com o esporte começa quando crianças e torna-se mais efetivo na juventude, quando começam a se destacar nas competições de juniores. Ao passarem para a Elite, a dedicação é quase integral à orientação, um fator necessário para a obtenção de resultados a nível nacional e internacional. A maioria deles faz um curso superior, e continuam envolvidos com o esporte mesmo após deixarem de competir na Elite. 

Geralmente continua o vínculo com um clube de orientação ou algum vínculo profissional ligado à promoção de eventos, mapeamento ou instrução. Göran Ölund, que foi destaque entre os atletas da Elite da Suécia em meados da década de 60 e década de 70, continuou atuando no clube de sua cidade como mapeador e como técnico, garantindo a continuidade da fama de seu clube em revezamentos, com atletas de destaque a nível nacional e internacional. Sua casa de campo tem um quarto especial para hospedar atletas em treinamento, que podem treinar num mapa que ele fez naquela região. Um de seus filhos ensina orientação para as crianças do clube e o outro trabalha numa empresa que fabrica roupas e calçados de orientação.

Entre aqueles de minha idade, gostaria de citar o exemplo de Arto Rautiainen, atleta da Elite na Suécia no período de 1986 a 1998. Em 88, aos 20 anos de idade, ele participou do Campeonato Mundial Militar na Dinamarca, foi campeão individual e ajudou sua equipe a ser campeã naquele ano, junto com Kent Törnqvist, que após especializar-se em psicologia esportiva, foi o técnico da equipe militar sueca por mais de 10 anos.

Arto teve vários resultados expressivos na Elite internacional, correndo entre os melhores do mundo. Eu o conheci quando esteve no Rio de Janeiro em 1994, onde nos ajudou no mapeamento da Fortaleza de São João, na Urca. Estive com ele por duas semanas, onde além do mapeamento, participamos de um percurso na Floresta da Tijuca e de uma corrida de 10km em Niterói. Mesmo estando no auge de sua carreira como atleta, ele mantinha uma simplicidade e simpatia que agradava a todos que o conheciam. Depois de parar de competir na Elite, continuou envolvido com as atividades de seu clube de orientação. O contato com o esporte na maioria das vezes não é a atividade profissional principal dos orientistas, como acontece com muitos esportes amadores, mas influencia bastante nosso modo de vida e nosso círculo de amizades. 

A orientação pode ser um divertimento para muitos, com a oportunidade de conhecer lugares novos e ter contato com a natureza. Oportunidade para viajar e conhecer lugares diferentes no Brasil e no mundo. Para participar do campeonato brasileiro temos a oportunidade de conhecer diversas cidades em estados diferentes. A influência em nossas vidas vai além dos benefícios da atividade física e do lazer. Podemos fazer amizades e conhecer pessoas com qualidades incríveis, tanto profissionais como pessoais. De todos os benefícios, talvez esses benefícios sociais colaborem muito mais para o crescimento do esporte que o lado competitivo dele. As lembranças de um grande atleta estão ligadas não somente a seus feitos, mas principalmente a seu bom caráter e seu relacionamento com os amigos.

 

Manual do Orientista - Dica nr 98

 Dica nº 98: Diga não às drogas.

De acordo com as Regras Antidoping da CBO, quando uma pessoa escolheu o desporto Orientação para praticar optou por renunciar às drogas e ao uso de qualquer substância ou método proibido.  Após ter tomado esta decisão o praticante adquire os seguintes direitos e deveres: 

Direito de: Praticar o desporto Orientação livre de qualquer substância ou método proibido. Ser informado pelas entidades de prática e administração do desporto sobre os efeitos de substância ou método proibido no organismo.   

Dever de: Provar a todos os demais competidores que não ingere ou faz uso de qualquer substância ou método proibido. 

O aumento do uso de medicamentos destinados a melhorar o desempenho do atleta tem motivado uma ação intensa das autoridades esportivas nacionais e internacionais, visando preservar não apenas aos aspectos éticos da competição, mas, sobretudo, a saúde dos esportistas que dela participam. A lista de substâncias restritas se caracteriza como uma percentagem pequena do arsenal farmacológico e não impede o tratamento adequado ao atleta por razões terapêuticas justificáveis. Devem ser tomados cuidados especiais quanto à prescrição de remédios para dor, resfriados, cefaléias e problemas nasais e brônquicos. Preparações que só contenham antibiótico ou antihistamínico são permitidas, mas deve-se estar atento para as preparações combinadas que contenham efedrina e aminas simpaticomiméticas. 

É indispensável que o médico responsável esteja a par de todo medicamento usado pelo atleta, seja halopatia, homeopatia, fitoterapia, florais, medicina ortomolecular ou qualquer outro método administrado ou usado pelo atleta. Apenas assim poderá ser feita comunicação oficial à Comissão Médica da CBO, de acordo com o regulamento.
Seria recomendado ao atleta que não comesse, bebesse, fumasse, inalasse ou injetasse (ou usasse sob alguma outra forma de administração) qualquer substância desconhecida por ele, que não tenha sido recomendada pelo médico responsável. Muitos produtos derivados de plantas nativas de várias regiões (chás, pós, sementes, preparados diversos) podem ter ação dopante ou ter reação cruzada nos exames de verificação de doping na urina, principalmente no que se refere ao efeito estimulante.

As substâncias proibidas são comumente classificadas em quatro grupos:

Estimulantes: aceleram o funcionamento cerebral, deixando o atleta mais alerta, pois agem diretamente no sistema nervoso. Eles eliminam a sensação de fadiga e melhoram o desempenho do competidor. As drogas estimulantes mais comuns são: as anfetaminas, o crack, a cocaína, e o ecstasy.

Narcóticos analgésicos: têm o poder de mascarar a sensação da dor. A morfina e seus derivados são exemplos dessa classe. 

Diuréticos: Causam uma perda de água ao paralisar parcialmente a sua reabsorção e assim causam a perda de peso, além de serem utilizados também para eliminar outras substâncias proibidas.

Esteroides anabolizantes: usados para aumentar a massa muscular do atleta (não atletas também os utilizam para esse fim) e diminuem o tempo de recuperação. Podem ser consideradas as mais nocivas das substâncias vetadas.

Dependendo das circunstâncias, é possível receber uma autorização para uso terapêutico de um medicamento. Trata-se de uma autorização com validade predeterminada que o atleta precisa solicitar à Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD) caso necessite utilizar um medicamento que possua substância proibida por razões terapêuticas; desde que não exista uma opção de tratamento alternativo.

Deve haver cuidado com a manipulação de materiais desconhecidos, como pós, líquidos, resinas, pastas, etc., que podem conter substâncias proibidas, as quais, entrando em contato com o organismo, poderão repercutir em contaminação e sugerir resultado positivo para certas classes farmacológicas no controle de doping. Hoje em dia existem vários tipos de suplementos alimentares que apresentam em sua formulação anabólicos esteroides e que podem causar testes positivos em controles de dopagem. Por isso é importante nos informamos bem a respeito dos suplementos que formos utilizar, preferencialmente com a indicação de um médico que conheça as substâncias proibidas. 

A lista de substâncias proibidas também está disponível por meio do link da ABCD, a qual sugerimos que seja consultada com frequência, pois todas as atualizações serão lá publicadas.

 

 

Manual do Orientista - Dica nr 97

 Dica nº  97: Cuidado com os perigos naturais.

Num percurso de orientação encontramos vários obstáculos naturais. É necessário tomar muito cuidado com aqueles obstáculos que representam perigo ao orientista, como penhascos e barrancos altos, vegetação densa e com espinhos, charcos e rios intransponíveis. Na aviação, vários fatores adversos somados podem contribuir para um acidente aéreo ou até mesmo uma tragédia. Na orientação também precisamos estar atentos a certos cuidados para não sofrermos acidentes.

Eu presenciei uma ocasião onde os fatores adversos contribuíram para um acidente fatal com um colega durante um treinamento de orientação. Este aconteceu em 1996 com Ailton de Brito, sargento da FAB, durante um treinamento no Rio de Janeiro. Costumávamos treinar nas quintas-feiras, juntamente com outras equipes, cada vez com traçador de percurso diferente. Naquele dia Neir Braga foi o traçador e havia uma equipe do Exército participando. O Braga saiu para colocar os prismas e no sorteio da ordem de partida eu fui um dos primeiros e Brito o penúltimo. Completei o percurso sem problemas, chegando pouco depois do Braga ter acabado de colocar os prismas e depois que todos haviam partido e estavam no percurso. Depois que todos os colegas do Exército chegaram, sentimos a falta do Brito, e quando perguntamos se alguém o havia visto durante o percurso a resposta foi negativa. Passado o tempo normal de realização de percurso, dividimos o pessoal para voltar na área para tentar encontrá-lo. Procuramos até o final da tarde sem sucesso. Ao recolhermos a bolsa com o material do Brito encontramos a bússola entre seus pertences, fato que nos preocupou mais ainda, pois ele tinha saído sem a bússola. Ainda passamos de carro pelas principais vias da área após escurecer. A primeira pessoa que avisamos foi a esposa do Brito, deixando a bolsa dele com os documentos e pegamos uma foto para usarmos nas buscas seguintes. Voltamos para nossa organização e avisamos nosso comandante, que tomou as providências necessárias para que as buscas continuassem no dia seguinte. Voltamos na manhã seguinte com o auxílio de mais pessoas, inclusive pessoal especializado em busca e salvamento, separando várias equipes de busca para cobrir toda a área. Apenas no sábado de manhã uma das equipes conseguiu informações de pessoas que haviam visto o Brito na quinta-feira. Um coronel da reserva do Exército, que tinha uma chácara na parte leste da área tinha conversado com ele, cerca de meia hora depois do horário de partida.

O percurso seguia para o norte e para oeste, mas Brito afastou-se para leste, cerca de 1km fora da rota prevista, após o ponto 1, procurando o ponto 2. Passou naquela chácara procurando um local onde o caminho cruzava uma ponte. Ele pediu água e perguntou onde ficaria uma ponte nas proximidades, e o dono da chácara falou que no rio que passava ao lado tinha um tipo de ponte até o outro lado. O problema, além do Brito não estar com a bússola, foi não perceber que estava próximo do limite do mapa, onde tinha um rio de cerca de 50m de largura que corria de norte para sul e que não era o córrego de 10m de largura que corrida de oeste para leste, onde era a área do ponto de controle. A ponte próxima da chácara, na verdade era um aqueduto com uma diferença de altura maior que 3m de uma margem para a outra, com alguns ferros impedindo as pessoas da margem oposta passar no sentido contrário. Não dá para entender como ele não observou a largura do rio e não percebeu que nenhum traçador colocaria um ponto de controle naquele local. O pessoal da equipe de busca foi para o outro lado do rio e encontrou dois garotos que haviam visto o Brito. Eles estavam próximo ao rio, cuidando de um cavalo, quando viram o Brito passando para aquele lado e depois não conseguiu voltar pelo mesmo local. Viram que ele guardou um papel (o mapa) num bolso na frente da roupa e tentou atravessar de volta a nado, mas a correnteza era forte e o arrastou rio abaixo. O problema maior, além da correnteza forte, era que mais abaixo, depois da curva do rio, havia uma corredeira com muitas pedras, onde ele bateu a cabeça, que foi o motivo de sua morte. O corpo do Brito foi encontrado no domingo de manhã, num remanso cerca de 5km abaixo, quando um helicóptero de busca vasculhava o rio. Uma série de fatores adversos contribuíram para este triste fim, mas a principal lição, fora a questão da busca por alternativas corretas de relocalização, é que não devemos subestimar os perigos da natureza, e jamais nos arriscarmos numa situação duvidosa de perigo em potencial.

Há perigos que estão além de nossa capacidade de superação. Geralmente os traçadores de percurso evitam os locais de risco, como aconteceu ali, mas cabe a cada orientista ter cautela e evitar colocar-se em situação perigosa. Em 2016 tivemos outro acidente fatal com o veterano Itamar Torrezam, que desviou um pouco da rota, e quando atravessava uma área de vegetação mais densa caiu de um penhasco com mais de vinte metros de altura.

Outro risco são as doenças transmitidas por carrapatos. O sueco Arto Rautiainen, depois que parou de competir na Elite, continuou envolvido com seu clube de orientação, até que morreu inesperadamente aos 36 anos de idade, durante um treinamento, sem motivo confirmado. Outras mortes misteriosas ocorreram com alguns orientistas da Europa, sem nenhuma causa ter sido encontrada, após efetuados os exames. Suspeita-se de encefalite transmitida por carrapatos, doença para a qual o governo sueco desenvolveu recentemente uma vacina que pode proteger. Às vezes as pessoas infectadas confundem os sintomas como a febre, com os de uma virose comum, mas o caso pode ser mais perigoso se não diagnosticado corretamente.

No Brasil temos um risco semelhante de contrair a febre maculosa, doença semelhante à descrita acima, transmitida por carrapatos, que já teve casos fatais entre pescadores, que contraíram a doença em locais onde havia capivaras. E temos ainda os riscos das doenças transmitidas por mosquitos, como a febre amarela. Os militares já costumam tomar as vacinas necessárias, e da mesma maneira os demais orientistas devem procurar as vacinas disponíveis para as doenças ligadas a áreas rurais e de floresta.

Casos fatais ocorrem em vários esportes, o nosso é um que teve poucos, mas vários acidentes menos graves podem ocorrer se não prestarmos atenção, assim devemos tomar os cuidados adequados em locais naturais que oferecem perigos potenciais.

 


Manual do Orientista - Dica nr 96

 Dica nº  96: Orientação e impacto ambiental.

Além dos princípios expostos na Dica nº 9, gostaria de acrescentar algumas informações sobre impacto ambiental.

Toda atividade humana em meio natural gera algum impacto ambiental. Impacto ambiental é o efeito causado por qualquer alteração benéfica ou adversa causada pelas atividades humanas ou naturais no meio ambiente. As ações humanas sobre o meio ambiente podem ser positivas ou negativas, dependendo da intervenção desenvolvida.

A Floresta da Tijuca no Rio de Janeiro é um exemplo benéfico, quando de sua criação, no final do século XIX, ao ser reflorestada uma grande área onde desmatamentos e queimadas, antes para a cana de açúcar e depois para o cultivo do café, haviam substituído grandes áreas de floresta por fazendas já pouco produtivas. 


Os orientistas encontram poucos problemas na área ambiental ao realizar eventos em áreas não protegidas. Em alguns casos, como em plantações da indústria de papel, conseguimos apoio para as atividades esportivas em suas áreas. Entretanto, há muitos locais onde a orientação deve observar a conservação de áreas especiais e agir com responsabilidade, buscando as permissões necessárias após um estudo e planejamento de uso da área, de modo a minimizar o impacto ambiental e perturbação da fauna.

Através de um bom planejamento, efeitos negativos significantes podem ser evitados. Precisamos entender o problema e fazer parceria com os órgãos que controlam as áreas em que realizamos eventos. A orientação tem o lado positivo do mapeamento detalhado das áreas que utilizamos, além da oportunidade de promover a educação ambiental entre os participantes. Devemos usar essas oportunidades para agir positivamente em relação ao meio ambiente. 

As Florestas e Parques Nacionais têm a preocupação de propiciar a visitação, lazer e recreação de forma ordenada, voltados para a sensibilização ambiental, a valorização e a conservação do patrimônio natural, e promover a educação ambiental, constituindo-se como espaço pedagógico difusor de conceitos e práticas ambientalmente corretas. A orientação pode cooperar com essas tarefas dos administradores de áreas públicas e privadas. No planejamento de eventos, os percursos devem ser traçados de modo a direcionar os competidores pelo terreno de maneira adequada, evitando áreas perigosas aos praticantes e sensíveis ao meio ambiente, delimitando com fitas quando necessário.

As áreas com charco são as que podem ser mais afetadas e de recuperação mais demorada, por isso deve ser evitado o cruzamento dessas, posicionando os pontos de controle nas bordas e não no meio, de modo que os competidores chegando e saindo do local não sejam obrigados a passar pelo charco. Trilhas temporárias podem ser criadas na vegetação, mas normalmente desaparecem em pouco tempo. Em alguns locais deve ser observada a melhor época do ano para eventos, assim como o rodízio de áreas em uma grande região. Em áreas extensas é preciso observar a quantidade de animais selvagens e reservar locais para refúgio, direcionando as rotas para evitar esses locais. Muitas dessas medidas são de responsabilidade dos organizadores, mas todos os praticantes devem conhecer essas recomendações e cooperar com os cuidados necessários.

O cuidado com o recolhimento do lixo, por exemplo, é importante em todas as ocasiões, observando o recolhimento de latas, garrafas e plásticos encontrados no local ao final dos eventos, sendo responsabilidade não apenas dos organizadores, mas de todos os participantes. Esses aspectos educativos devem ser ensinados aos novatos no esporte, pois eles precisam aprender a respeitar os perigos da natureza, assim como respeitar suas fragilidades. Durante um percurso, o orientista fica atento à sua volta para atingir seus objetivos. Esta atenção estende-se à natureza em volta dele, sendo um grande privilégio e também uma grande responsabilidade.

Manual do Orientista - Dica nr 95

 Dica nº 95: Corrida na chuva requer cuidados especiais.

As competições de orientação ocorrem em qualquer situação de clima, exceto se houver grande perigo aos participantes. É bastante comum ocorrer em dias chuvosos. Os organizadores preparam-se para condições com chuva, desde a plastificação do mapa até a proteção do pessoal que trabalha na apuração de resultados. Para o competidor é importante preparar vários detalhes. 

 

A vestimenta deve ser feita de algum tipo de material sintético que não retenha muita água, preferencialmente ajustada ao corpo, pois quando a  roupa é muito larga, as bordas molhadas atrapalham os movimentos. O calçado deve ter travas que possibilitem maior aderência em terrenos íngremes e na lama. A aderência faz bastante diferença até o final do percurso. O calçado deve ter pouco tecido acolchoado que retenha água. Ele não pode ficar muito pesado quando molhado. Outros acessórios, como as caneleiras também não podem reter muita água, além de ter um bom ajuste, para não sair da posição e atrapalhar os movimentos. Algumas vezes eu preferia correr sem caneleiras quando estava chovendo, apenas com meias longas, de fibra sintética, para proteger as canelas. O uso de boné, viseira ou bandana ajuda bastante, evitando que a água da chuva, misturada ao suor, corra para os olhos e atrapalhe a leitura do mapa.

É importante fazer um bom aquecimento, para iniciar o percurso com uma sensação mais confortável, adaptando-se melhor à sensação de frio provocada pela chuva. Ao correr em estradas com barro temos que evitar as poças d’água, principalmente porque não sabemos a profundidade que têm, sendo perigoso cair ao pisar numa poça mais profunda. Devemos procurar também os locais com menos lama, quando possível, às vezes a beirada das trilhas tem alguma vegetação rasteira ou grama que é mais firme para pisar. Em alguns locais com lama há a possibilidade do pé afundar, o calçado ficar preso e o pé sair do calçado; aí há uma perda de tempo ao parar e calçar novamente. Com chuva devemos evitar os córregos e rios com mais de dois metros de largura, pois o volume de água aumenta muito e com a força da correnteza pode ser perigoso tentar uma travessia. Devemos procurar sempre os locais de travessia com pontes nessas circunstâncias.

Geralmente é melhor correr com clima de chuva do que com calor elevado. Na chuva transpiramos menos, perdendo menos água pelo suor. No calor a perda de líquido é mais intensa, com maior desgaste físico. Apesar do desconforto inicial, quando ficamos molhados, ao final de um percurso com chuva nos sentimos bem melhor do que em um percurso com clima quente. 

 

 

Manual do Orientista - Dica nr 93

 Dica nº  93: Competição noturna é muito emocionante.

Logo após o Campeonato Mundial Militar de 2005 na Finlândia, tive a oportunidade de participar do Jukola Relay, a maior competição de revezamento do mundo, com mais de 10 mil atletas masculinos participantes, onde fui o primeiro a partir de minha equipe, numa das pernas mais longas, com cerca de 13 km. As equipes femininas competem à tarde, cerca de 600 equipes com 4 participantes cada. A partida masculina geralmente ocorre às 23:00h, e são mais de 1.300 equipes, o que significa ter mais de 1.300 pessoas na partida para a primeira perna. 
Por ser realizado no verão, e não muito longe do Círculo Polar Ártico, o período de escuridão total quase não existe, mas é bem escuro dentro da floresta. Todos saem com lanterna na cabeça, principalmente para ter uma boa leitura do mapa. 


O primeiro ponto de controle ficava bem distante, cerca de 2600m da partida, com 3 variações diferentes. Procurei uma rota mais segura, utilizando uma estrada mais larga e entrando pelo vale entre duas elevações alongadas. Depois de certa distância segui pela elevação da esquerda, marcando a distância desde o início da subida; quando fechou a distância prevista no alto da elevação não vi sinal do ponto, mas observei várias luzes um pouco mais à direita, segui para lá e encontrei meu ponto de controle. Os prismas possuem iluminação, mas o desafio maior está em realizar a rota correta para os pontos de controle, mantendo a concentração no mapa o tempo todo. Foi emocionante sair no meio daquela multidão, com milhares de atletas entrando floresta à dentro. Naquele ano havia mais de 1300 equipes participando da competição masculina.
 
 

Desde início da competição começam a se formar várias filas de luzes, indo para direções diferentes. Quando estamos num campo aberto, é possível ver 3 filas bem distintas. Uma tática bastante comum é tirar a direção com a bússola e seguir a fila que ela apontar. Mas para fazer isto é necessário saber sempre qual o local onde se está e conferir as referências mais distintas no terreno. Com um pouco de prática e utilizando técnicas básicas, não é tão difícil chegar aos pontos de controle corretos. É comum haver pontos de controle próximos uns dos outros, pertencentes a variações diferentes. Nestes casos, é importante estar atento à navegação nas proximidades dos pontos, para quando achar um prisma de código diferente, rapidamente identificar a direção correta a seguir. Aconteceu de observar que a fila seguia com tendência para a direita ao aproximar-se do alto de uma elevação onde estava o ponto. Quando bati num ponto de controle com código diferente, logo virei para a esquerda, onde vi outras luzes, e achei o ponto correto. Correndo para o ponto seguinte passei um pouco mais adiante por outro ponto de variação diferente. Quando mantemos a concentração no mapa, seguindo os pontos de referência, é incrível quando avistamos o ponto de controle que procuramos. Às vezes escolhemos uma trilha diferente e saímos da fila de luzes; passa até um temor de ter seguido por uma trilha errada; mas dali a pouco, ao voltarmos para outra trilha mais próxima ao ponto, encontramos a fila de luzes novamente. Outra imagem incrível que podemos presenciar é quando a fila do final de uma perna cruza com a fila do início da perna seguinte. São duas filas de luzes, uma com mais de um quilômetro de extensão, cruzando-se com as luzes que seguem em direções diferentes e sentidos opostos. Foi uma imagem incrível e que nunca imaginava presenciar num percurso de orientação. No final tem um balizamento enorme até a chegada, passando em frente ao telão que mostra as imagens dos atletas em vários pontos do percurso, seguindo para a área de transição, onde deixamos o mapa inicial e temos que pegar o mapa para passar ao próximo colega de equipe. Depois de fazermos nossa parte, podemos acompanhar o desempenho das primeiras equipes a cada ponto de controle monitorado através do telão, com imagens dos atletas na liderança. O final costuma ser decidido na última perna, geralmente com os melhores atletas do ranking mundial fechando para as equipes favoritas. Naquele ano venceu a equipe finlandesa que tinha o francês Thierry Gueorgiou para fechar a competição. Ele iniciou a perna em segundo, mas passou o sueco Emil Wingstedt, da equipe norueguesa que liderava a disputa, num erro mostrado on-line para a plateia. Thierry ficou surpreso e feliz por ser anunciado como líder da prova ao entrar na área de chegada.

Esta é mais uma competição excelente, tanto para participar como para assistir, pois podemos acompanhar vários momentos da prova através do telão com as imagens da disputa entre as principais equipes concorrentes. Atualmente é possível acompanhar esta competição através da transmissão pela internet. Ir ao ÍNDICE