10 de fev. de 2026

Manual do Orientista - Dica nr 100

 Dica nº 100: Nunca desista!

Em 1990 participei dos Cinco Dias de Orientação da Suécia. Fui o único brasileiro a participar naquele ano, e fiz a Clínica para Atletas de Elite do O-Ringen. Um fato curioso foi que, além de participar dos 3 dias da clínica, ainda corri na categoria H21E, provavelmente o primeiro brasileiro a competir nesta categoria na história dessa competição, onde todos os percursos tinham mais de 10km. Apesar do bom preparo físico, o 5º dia de competição era na realidade o 8º dia de percursos seguidos! Nos quatro percursos anteriores eu tive as dificuldades normais dos percursos, com alguns erros não muito grandes, sendo que nos primeiros dias tinha feito tempos próximos a 1h 51min, com ritmo médio de 8 minutos por quilômetro.

Naquele último dia a ordem de partida era de acordo com o resultado dos dias anteriores, por isso fui um dos últimos a partir. Aconteceu que no meio do percurso comecei a sentir muito cansaço físico e mental. Eu partira na frente de um britânico (que foi o último a partir) que me alcançou lá pelo ponto 6, mas não tive disposição para dar combate, estava tão cansado que desisti de seguir com ele. Lembro-me que sentia o calor daquela tarde e que a sensação de cansaço era realmente grande lá pelo décimo ponto de controle. Depois de pegar o ponto 11, o ponto 12 ficava a cerca de 200m, tirei um azimute rápido na bússola de dedo, mas saí mais à esquerda do ponto. Encontrei um prisma e notei logo que não era o meu, fiquei então girando em círculos, tentando achar meu prisma, o que não foi a melhor tática. Devido ao cansaço, já estava sentindo dificuldade para raciocinar com clareza. Depois de muito tempo, resolvi voltar ao ponto anterior; e por incrível que pareça, ainda reconheci o caminho de volta! Quando voltei ao ponto 11, olhei para o relógio: havia passado mais de 30 minutos, só naquele erro!  Já comentei que voltar à referência anterior sempre é a melhor opção quando erramos o azimute, e gastei muito tempo por não fazer isso logo, para aprender esta lição.  Tirei o azimute novamente e fui caminhando na direção certa – e bati direto do prisma correto! Depois disso ainda havia uma pernada com mais de 1 km, mas fiz com cuidado, procurando as referências do terreno sem errar. Depois dessa pernada já podia ouvir os alto-falantes da área de chegada, e foi uma sensação de grande alívio quando marquei o último ponto de controle e entrei pelo do funil de chegada, para fechar o percurso com 2h 44min, dentro do limite permitido de 3 horas! 

Nos dias anteriores o que impressionava era a grande multidão em volta da chegada, com muito barulho e o som dos alto-falantes. Naquele ano havia cerca de 20.000 competidores em cada dia. Mas aquela chegada foi bem diferente, havia poucas pessoas e o pessoal da organização já estava desmontando tudo. Quando entrei no funil de chegada, após marcar o último ponto, o único som que se ouvia era o de martelos despregando coisas, mas que foi substituído por palmas e alguns gritos de saudação, quando o alto-falante anunciou a aproximação de um orientista em especial: o último a chegar de todo o evento! 

Foi a maior emoção que já senti em toda minha carreira de atleta! Já passei por grandes momentos, como participar da partida em massa no Jukola Relay, ou de chegar ao final de alguns percursos “zerando a pista” com a torcida da equipe gritando de felicidade. Quando a gente “zera” um percurso, a adrenalina está a mil, e a alegria é muito grande, mas quando se está esgotado, aquelas palmas são a compensação daquele orientista cujo único objetivo era completar seu percurso, e a satisfação é tão grande quanto a de ter sido campeão! Eu sempre me emociono quando lembro daquele momento, mais do que qualquer outro.

Um jornalista da revista Skogssport, da Federação Sueca de Orientação, tirou minha foto e escreveu um pequeno artigo sobre o final do evento. Ele contou no artigo que naquela tarde ficou à espera do último atleta daquele evento. Quando só faltava a minha chegada, ele perguntou ao árbitro de chegada se eu desistiria ou se estaria com todos os pontos marcados corretamente. “Ele nunca desiste” – disse o árbitro – observando os resultados anteriores daquela semana. Quando cheguei, às 16h e 21min, todos os picotes estavam corretos, eu completara todos os percursos, e o evento de orientação no O-Ringen 5 Days de 1990 estava encerrado.

 

Meus amigos suecos deram os parabéns por eu ter sido o 65° colocado na categoria H21E do O-Ringen, dizendo que não fui o último dos 90 que competiram, pois até o Jörgen Martensson havia desistido e não completou aquela competição. 

A principal lição que aprendi foi esta: que é muito importante não desistir e completar um percurso, pois estamos vencendo desafios que são muito difíceis. Além disso, estamos vencendo nossos próprios limites! 

 

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Manual do Orientista - Dica nr 99

 Dica nº  99: Orientação é um estilo de vida. 

Para muitos esportistas, o envolvimento com o esporte incorpora tantos hábitos que passa a fazer parte do estilo de vida. Observei muitos atletas da Elite na Europa que incorporaram esta realidade. Para muitos deles, o envolvimento com o esporte começa quando crianças e torna-se mais efetivo na juventude, quando começam a se destacar nas competições de juniores. Ao passarem para a Elite, a dedicação é quase integral à orientação, um fator necessário para a obtenção de resultados a nível nacional e internacional. A maioria deles faz um curso superior, e continuam envolvidos com o esporte mesmo após deixarem de competir na Elite. 

Geralmente continua o vínculo com um clube de orientação ou algum vínculo profissional ligado à promoção de eventos, mapeamento ou instrução. Göran Ölund, que foi destaque entre os atletas da Elite da Suécia em meados da década de 60 e década de 70, continuou atuando no clube de sua cidade como mapeador e como técnico, garantindo a continuidade da fama de seu clube em revezamentos, com atletas de destaque a nível nacional e internacional. Sua casa de campo tem um quarto especial para hospedar atletas em treinamento, que podem treinar num mapa que ele fez naquela região. Um de seus filhos ensina orientação para as crianças do clube e o outro trabalha numa empresa que fabrica roupas e calçados de orientação.

Entre aqueles de minha idade, gostaria de citar o exemplo de Arto Rautiainen, atleta da Elite na Suécia no período de 1986 a 1998. Em 88, aos 20 anos de idade, ele participou do Campeonato Mundial Militar na Dinamarca, foi campeão individual e ajudou sua equipe a ser campeã naquele ano, junto com Kent Törnqvist, que após especializar-se em psicologia esportiva, foi o técnico da equipe militar sueca por mais de 10 anos.

Arto teve vários resultados expressivos na Elite internacional, correndo entre os melhores do mundo. Eu o conheci quando esteve no Rio de Janeiro em 1994, onde nos ajudou no mapeamento da Fortaleza de São João, na Urca. Estive com ele por duas semanas, onde além do mapeamento, participamos de um percurso na Floresta da Tijuca e de uma corrida de 10km em Niterói. Mesmo estando no auge de sua carreira como atleta, ele mantinha uma simplicidade e simpatia que agradava a todos que o conheciam. Depois de parar de competir na Elite, continuou envolvido com as atividades de seu clube de orientação. O contato com o esporte na maioria das vezes não é a atividade profissional principal dos orientistas, como acontece com muitos esportes amadores, mas influencia bastante nosso modo de vida e nosso círculo de amizades. 

A orientação pode ser um divertimento para muitos, com a oportunidade de conhecer lugares novos e ter contato com a natureza. Oportunidade para viajar e conhecer lugares diferentes no Brasil e no mundo. Para participar do campeonato brasileiro temos a oportunidade de conhecer diversas cidades em estados diferentes. A influência em nossas vidas vai além dos benefícios da atividade física e do lazer. Podemos fazer amizades e conhecer pessoas com qualidades incríveis, tanto profissionais como pessoais. De todos os benefícios, talvez esses benefícios sociais colaborem muito mais para o crescimento do esporte que o lado competitivo dele. As lembranças de um grande atleta estão ligadas não somente a seus feitos, mas principalmente a seu bom caráter e seu relacionamento com os amigos.

 

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Manual do Orientista - Dica nr 98

 Dica nº 98: Diga não às drogas.

De acordo com as Regras Antidoping da CBO, quando uma pessoa escolheu o desporto Orientação para praticar optou por renunciar às drogas e ao uso de qualquer substância ou método proibido.  Após ter tomado esta decisão o praticante adquire os seguintes direitos e deveres: 

Direito de: Praticar o desporto Orientação livre de qualquer substância ou método proibido. Ser informado pelas entidades de prática e administração do desporto sobre os efeitos de substância ou método proibido no organismo.   

Dever de: Provar a todos os demais competidores que não ingere ou faz uso de qualquer substância ou método proibido. 

O aumento do uso de medicamentos destinados a melhorar o desempenho do atleta tem motivado uma ação intensa das autoridades esportivas nacionais e internacionais, visando preservar não apenas aos aspectos éticos da competição, mas, sobretudo, a saúde dos esportistas que dela participam. A lista de substâncias restritas se caracteriza como uma percentagem pequena do arsenal farmacológico e não impede o tratamento adequado ao atleta por razões terapêuticas justificáveis. Devem ser tomados cuidados especiais quanto à prescrição de remédios para dor, resfriados, cefaléias e problemas nasais e brônquicos. Preparações que só contenham antibiótico ou antihistamínico são permitidas, mas deve-se estar atento para as preparações combinadas que contenham efedrina e aminas simpaticomiméticas. 

É indispensável que o médico responsável esteja a par de todo medicamento usado pelo atleta, seja halopatia, homeopatia, fitoterapia, florais, medicina ortomolecular ou qualquer outro método administrado ou usado pelo atleta. Apenas assim poderá ser feita comunicação oficial à Comissão Médica da CBO, de acordo com o regulamento.
Seria recomendado ao atleta que não comesse, bebesse, fumasse, inalasse ou injetasse (ou usasse sob alguma outra forma de administração) qualquer substância desconhecida por ele, que não tenha sido recomendada pelo médico responsável. Muitos produtos derivados de plantas nativas de várias regiões (chás, pós, sementes, preparados diversos) podem ter ação dopante ou ter reação cruzada nos exames de verificação de doping na urina, principalmente no que se refere ao efeito estimulante.

As substâncias proibidas são comumente classificadas em quatro grupos:

Estimulantes: aceleram o funcionamento cerebral, deixando o atleta mais alerta, pois agem diretamente no sistema nervoso. Eles eliminam a sensação de fadiga e melhoram o desempenho do competidor. As drogas estimulantes mais comuns são: as anfetaminas, o crack, a cocaína, e o ecstasy.

Narcóticos analgésicos: têm o poder de mascarar a sensação da dor. A morfina e seus derivados são exemplos dessa classe. 

Diuréticos: Causam uma perda de água ao paralisar parcialmente a sua reabsorção e assim causam a perda de peso, além de serem utilizados também para eliminar outras substâncias proibidas.

Esteroides anabolizantes: usados para aumentar a massa muscular do atleta (não atletas também os utilizam para esse fim) e diminuem o tempo de recuperação. Podem ser consideradas as mais nocivas das substâncias vetadas.

Dependendo das circunstâncias, é possível receber uma autorização para uso terapêutico de um medicamento. Trata-se de uma autorização com validade predeterminada que o atleta precisa solicitar à Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD) caso necessite utilizar um medicamento que possua substância proibida por razões terapêuticas; desde que não exista uma opção de tratamento alternativo.

Deve haver cuidado com a manipulação de materiais desconhecidos, como pós, líquidos, resinas, pastas, etc., que podem conter substâncias proibidas, as quais, entrando em contato com o organismo, poderão repercutir em contaminação e sugerir resultado positivo para certas classes farmacológicas no controle de doping. Hoje em dia existem vários tipos de suplementos alimentares que apresentam em sua formulação anabólicos esteroides e que podem causar testes positivos em controles de dopagem. Por isso é importante nos informamos bem a respeito dos suplementos que formos utilizar, preferencialmente com a indicação de um médico que conheça as substâncias proibidas. 

A lista de substâncias proibidas também está disponível por meio do link da ABCD, a qual sugerimos que seja consultada com frequência, pois todas as atualizações serão lá publicadas.

 

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Manual do Orientista - Dica nr 97

 Dica nº  97: Cuidado com os perigos naturais.

Num percurso de orientação encontramos vários obstáculos naturais. É necessário tomar muito cuidado com aqueles obstáculos que representam perigo ao orientista, como penhascos e barrancos altos, vegetação densa e com espinhos, charcos e rios intransponíveis. Na aviação, vários fatores adversos somados podem contribuir para um acidente aéreo ou até mesmo uma tragédia. Na orientação também precisamos estar atentos a certos cuidados para não sofrermos acidentes.

Eu presenciei uma ocasião onde os fatores adversos contribuíram para um acidente fatal com um colega durante um treinamento de orientação. Este aconteceu em 1996 com Ailton de Brito, sargento da FAB, durante um treinamento no Rio de Janeiro. Costumávamos treinar nas quintas-feiras, juntamente com outras equipes, cada vez com traçador de percurso diferente. Naquele dia Neir Braga foi o traçador e havia uma equipe do Exército participando. O Braga saiu para colocar os prismas e no sorteio da ordem de partida eu fui um dos primeiros e Brito o penúltimo. Completei o percurso sem problemas, chegando pouco depois do Braga ter acabado de colocar os prismas e depois que todos haviam partido e estavam no percurso. Depois que todos os colegas do Exército chegaram, sentimos a falta do Brito, e quando perguntamos se alguém o havia visto durante o percurso a resposta foi negativa. Passado o tempo normal de realização de percurso, dividimos o pessoal para voltar na área para tentar encontrá-lo. Procuramos até o final da tarde sem sucesso. Ao recolhermos a bolsa com o material do Brito encontramos a bússola entre seus pertences, fato que nos preocupou mais ainda, pois ele tinha saído sem a bússola. Ainda passamos de carro pelas principais vias da área após escurecer. A primeira pessoa que avisamos foi a esposa do Brito, deixando a bolsa dele com os documentos e pegamos uma foto para usarmos nas buscas seguintes. Voltamos para nossa organização e avisamos nosso comandante, que tomou as providências necessárias para que as buscas continuassem no dia seguinte. Voltamos na manhã seguinte com o auxílio de mais pessoas, inclusive pessoal especializado em busca e salvamento, separando várias equipes de busca para cobrir toda a área. Apenas no sábado de manhã uma das equipes conseguiu informações de pessoas que haviam visto o Brito na quinta-feira. Um coronel da reserva do Exército, que tinha uma chácara na parte leste da área tinha conversado com ele, cerca de meia hora depois do horário de partida.

O percurso seguia para o norte e para oeste, mas Brito afastou-se para leste, cerca de 1km fora da rota prevista, após o ponto 1, procurando o ponto 2. Passou naquela chácara procurando um local onde o caminho cruzava uma ponte. Ele pediu água e perguntou onde ficaria uma ponte nas proximidades, e o dono da chácara falou que no rio que passava ao lado tinha um tipo de ponte até o outro lado. O problema, além do Brito não estar com a bússola, foi não perceber que estava próximo do limite do mapa, onde tinha um rio de cerca de 50m de largura que corria de norte para sul e que não era o córrego de 10m de largura que corrida de oeste para leste, onde era a área do ponto de controle. A ponte próxima da chácara, na verdade era um aqueduto com uma diferença de altura maior que 3m de uma margem para a outra, com alguns ferros impedindo as pessoas da margem oposta passar no sentido contrário. Não dá para entender como ele não observou a largura do rio e não percebeu que nenhum traçador colocaria um ponto de controle naquele local. O pessoal da equipe de busca foi para o outro lado do rio e encontrou dois garotos que haviam visto o Brito. Eles estavam próximo ao rio, cuidando de um cavalo, quando viram o Brito passando para aquele lado e depois não conseguiu voltar pelo mesmo local. Viram que ele guardou um papel (o mapa) num bolso na frente da roupa e tentou atravessar de volta a nado, mas a correnteza era forte e o arrastou rio abaixo. O problema maior, além da correnteza forte, era que mais abaixo, depois da curva do rio, havia uma corredeira com muitas pedras, onde ele bateu a cabeça, que foi o motivo de sua morte. O corpo do Brito foi encontrado no domingo de manhã, num remanso cerca de 5km abaixo, quando um helicóptero de busca vasculhava o rio. Uma série de fatores adversos contribuíram para este triste fim, mas a principal lição, fora a questão da busca por alternativas corretas de relocalização, é que não devemos subestimar os perigos da natureza, e jamais nos arriscarmos numa situação duvidosa de perigo em potencial.

Há perigos que estão além de nossa capacidade de superação. Geralmente os traçadores de percurso evitam os locais de risco, como aconteceu ali, mas cabe a cada orientista ter cautela e evitar colocar-se em situação perigosa. Em 2016 tivemos outro acidente fatal com o veterano Itamar Torrezam, que desviou um pouco da rota, e quando atravessava uma área de vegetação mais densa caiu de um penhasco com mais de vinte metros de altura.

Outro risco são as doenças transmitidas por carrapatos. O sueco Arto Rautiainen, depois que parou de competir na Elite, continuou envolvido com seu clube de orientação, até que morreu inesperadamente aos 36 anos de idade, durante um treinamento, sem motivo confirmado. Outras mortes misteriosas ocorreram com alguns orientistas da Europa, sem nenhuma causa ter sido encontrada, após efetuados os exames. Suspeita-se de encefalite transmitida por carrapatos, doença para a qual o governo sueco desenvolveu recentemente uma vacina que pode proteger. Às vezes as pessoas infectadas confundem os sintomas como a febre, com os de uma virose comum, mas o caso pode ser mais perigoso se não diagnosticado corretamente.

No Brasil temos um risco semelhante de contrair a febre maculosa, doença semelhante à descrita acima, transmitida por carrapatos, que já teve casos fatais entre pescadores, que contraíram a doença em locais onde havia capivaras. E temos ainda os riscos das doenças transmitidas por mosquitos, como a febre amarela. Os militares já costumam tomar as vacinas necessárias, e da mesma maneira os demais orientistas devem procurar as vacinas disponíveis para as doenças ligadas a áreas rurais e de floresta.

Casos fatais ocorrem em vários esportes, o nosso é um que teve poucos, mas vários acidentes menos graves podem ocorrer se não prestarmos atenção, assim devemos tomar os cuidados adequados em locais naturais que oferecem perigos potenciais.

 

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Manual do Orientista - Dica nr 96

 Dica nº  96: Orientação e impacto ambiental.

Além dos princípios expostos na Dica nº 9, gostaria de acrescentar algumas informações sobre impacto ambiental.

Toda atividade humana em meio natural gera algum impacto ambiental. Impacto ambiental é o efeito causado por qualquer alteração benéfica ou adversa causada pelas atividades humanas ou naturais no meio ambiente. As ações humanas sobre o meio ambiente podem ser positivas ou negativas, dependendo da intervenção desenvolvida.

A Floresta da Tijuca no Rio de Janeiro é um exemplo benéfico, quando de sua criação, no final do século XIX, ao ser reflorestada uma grande área onde desmatamentos e queimadas, antes para a cana de açúcar e depois para o cultivo do café, haviam substituído grandes áreas de floresta por fazendas já pouco produtivas. 


Os orientistas encontram poucos problemas na área ambiental ao realizar eventos em áreas não protegidas. Em alguns casos, como em plantações da indústria de papel, conseguimos apoio para as atividades esportivas em suas áreas. Entretanto, há muitos locais onde a orientação deve observar a conservação de áreas especiais e agir com responsabilidade, buscando as permissões necessárias após um estudo e planejamento de uso da área, de modo a minimizar o impacto ambiental e perturbação da fauna.

Através de um bom planejamento, efeitos negativos significantes podem ser evitados. Precisamos entender o problema e fazer parceria com os órgãos que controlam as áreas em que realizamos eventos. A orientação tem o lado positivo do mapeamento detalhado das áreas que utilizamos, além da oportunidade de promover a educação ambiental entre os participantes. Devemos usar essas oportunidades para agir positivamente em relação ao meio ambiente. 

As Florestas e Parques Nacionais têm a preocupação de propiciar a visitação, lazer e recreação de forma ordenada, voltados para a sensibilização ambiental, a valorização e a conservação do patrimônio natural, e promover a educação ambiental, constituindo-se como espaço pedagógico difusor de conceitos e práticas ambientalmente corretas. A orientação pode cooperar com essas tarefas dos administradores de áreas públicas e privadas. No planejamento de eventos, os percursos devem ser traçados de modo a direcionar os competidores pelo terreno de maneira adequada, evitando áreas perigosas aos praticantes e sensíveis ao meio ambiente, delimitando com fitas quando necessário.

As áreas com charco são as que podem ser mais afetadas e de recuperação mais demorada, por isso deve ser evitado o cruzamento dessas, posicionando os pontos de controle nas bordas e não no meio, de modo que os competidores chegando e saindo do local não sejam obrigados a passar pelo charco. Trilhas temporárias podem ser criadas na vegetação, mas normalmente desaparecem em pouco tempo. Em alguns locais deve ser observada a melhor época do ano para eventos, assim como o rodízio de áreas em uma grande região. Em áreas extensas é preciso observar a quantidade de animais selvagens e reservar locais para refúgio, direcionando as rotas para evitar esses locais. Muitas dessas medidas são de responsabilidade dos organizadores, mas todos os praticantes devem conhecer essas recomendações e cooperar com os cuidados necessários.

O cuidado com o recolhimento do lixo, por exemplo, é importante em todas as ocasiões, observando o recolhimento de latas, garrafas e plásticos encontrados no local ao final dos eventos, sendo responsabilidade não apenas dos organizadores, mas de todos os participantes. Esses aspectos educativos devem ser ensinados aos novatos no esporte, pois eles precisam aprender a respeitar os perigos da natureza, assim como respeitar suas fragilidades. Durante um percurso, o orientista fica atento à sua volta para atingir seus objetivos. Esta atenção estende-se à natureza em volta dele, sendo um grande privilégio e também uma grande responsabilidade.

 

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Manual do Orientista - Dica nr 95

 Dica nº 95: Corrida na chuva requer cuidados especiais.

As competições de orientação ocorrem em qualquer situação de clima, exceto se houver grande perigo aos participantes. É bastante comum ocorrer em dias chuvosos. Os organizadores preparam-se para condições com chuva, desde a plastificação do mapa até a proteção do pessoal que trabalha na apuração de resultados. Para o competidor é importante preparar vários detalhes. 

 

A vestimenta deve ser feita de algum tipo de material sintético que não retenha muita água, preferencialmente ajustada ao corpo, pois quando a  roupa é muito larga, as bordas molhadas atrapalham os movimentos. O calçado deve ter travas que possibilitem maior aderência em terrenos íngremes e na lama. A aderência faz bastante diferença até o final do percurso. O calçado deve ter pouco tecido acolchoado que retenha água. Ele não pode ficar muito pesado quando molhado. Outros acessórios, como as caneleiras também não podem reter muita água, além de ter um bom ajuste, para não sair da posição e atrapalhar os movimentos. Algumas vezes eu preferia correr sem caneleiras quando estava chovendo, apenas com meias longas, de fibra sintética, para proteger as canelas. O uso de boné, viseira ou bandana ajuda bastante, evitando que a água da chuva, misturada ao suor, corra para os olhos e atrapalhe a leitura do mapa.

É importante fazer um bom aquecimento, para iniciar o percurso com uma sensação mais confortável, adaptando-se melhor à sensação de frio provocada pela chuva. Ao correr em estradas com barro temos que evitar as poças d’água, principalmente porque não sabemos a profundidade que têm, sendo perigoso cair ao pisar numa poça mais profunda. Devemos procurar também os locais com menos lama, quando possível, às vezes a beirada das trilhas tem alguma vegetação rasteira ou grama que é mais firme para pisar. Em alguns locais com lama há a possibilidade do pé afundar, o calçado ficar preso e o pé sair do calçado; aí há uma perda de tempo ao parar e calçar novamente. Com chuva devemos evitar os córregos e rios com mais de dois metros de largura, pois o volume de água aumenta muito e com a força da correnteza pode ser perigoso tentar uma travessia. Devemos procurar sempre os locais de travessia com pontes nessas circunstâncias.

Geralmente é melhor correr com clima de chuva do que com calor elevado. Na chuva transpiramos menos, perdendo menos água pelo suor. No calor a perda de líquido é mais intensa, com maior desgaste físico. Apesar do desconforto inicial, quando ficamos molhados, ao final de um percurso com chuva nos sentimos bem melhor do que em um percurso com clima quente. 

 

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Manual do Orientista - Dica nr 93

 Dica nº  93: Competição noturna é muito emocionante.

Logo após o Campeonato Mundial Militar de 2005 na Finlândia, tive a oportunidade de participar do Jukola Relay, a maior competição de revezamento do mundo, com mais de 10 mil atletas masculinos participantes, onde fui o primeiro a partir de minha equipe, numa das pernas mais longas, com cerca de 13 km. As equipes femininas competem à tarde, cerca de 600 equipes com 4 participantes cada. A partida masculina geralmente ocorre às 23:00h, e são mais de 1.300 equipes, o que significa ter mais de 1.300 pessoas na partida para a primeira perna. 
Por ser realizado no verão, e não muito longe do Círculo Polar Ártico, o período de escuridão total quase não existe, mas é bem escuro dentro da floresta. Todos saem com lanterna na cabeça, principalmente para ter uma boa leitura do mapa. 


O primeiro ponto de controle ficava bem distante, cerca de 2600m da partida, com 3 variações diferentes. Procurei uma rota mais segura, utilizando uma estrada mais larga e entrando pelo vale entre duas elevações alongadas. Depois de certa distância segui pela elevação da esquerda, marcando a distância desde o início da subida; quando fechou a distância prevista no alto da elevação não vi sinal do ponto, mas observei várias luzes um pouco mais à direita, segui para lá e encontrei meu ponto de controle. Os prismas possuem iluminação, mas o desafio maior está em realizar a rota correta para os pontos de controle, mantendo a concentração no mapa o tempo todo. Foi emocionante sair no meio daquela multidão, com milhares de atletas entrando floresta à dentro. Naquele ano havia mais de 1300 equipes participando da competição masculina.
 
 

Desde início da competição começam a se formar várias filas de luzes, indo para direções diferentes. Quando estamos num campo aberto, é possível ver 3 filas bem distintas. Uma tática bastante comum é tirar a direção com a bússola e seguir a fila que ela apontar. Mas para fazer isto é necessário saber sempre qual o local onde se está e conferir as referências mais distintas no terreno. Com um pouco de prática e utilizando técnicas básicas, não é tão difícil chegar aos pontos de controle corretos. É comum haver pontos de controle próximos uns dos outros, pertencentes a variações diferentes. Nestes casos, é importante estar atento à navegação nas proximidades dos pontos, para quando achar um prisma de código diferente, rapidamente identificar a direção correta a seguir. Aconteceu de observar que a fila seguia com tendência para a direita ao aproximar-se do alto de uma elevação onde estava o ponto. Quando bati num ponto de controle com código diferente, logo virei para a esquerda, onde vi outras luzes, e achei o ponto correto. Correndo para o ponto seguinte passei um pouco mais adiante por outro ponto de variação diferente. Quando mantemos a concentração no mapa, seguindo os pontos de referência, é incrível quando avistamos o ponto de controle que procuramos. Às vezes escolhemos uma trilha diferente e saímos da fila de luzes; passa até um temor de ter seguido por uma trilha errada; mas dali a pouco, ao voltarmos para outra trilha mais próxima ao ponto, encontramos a fila de luzes novamente. Outra imagem incrível que podemos presenciar é quando a fila do final de uma perna cruza com a fila do início da perna seguinte. São duas filas de luzes, uma com mais de um quilômetro de extensão, cruzando-se com as luzes que seguem em direções diferentes e sentidos opostos. Foi uma imagem incrível e que nunca imaginava presenciar num percurso de orientação. No final tem um balizamento enorme até a chegada, passando em frente ao telão que mostra as imagens dos atletas em vários pontos do percurso, seguindo para a área de transição, onde deixamos o mapa inicial e temos que pegar o mapa para passar ao próximo colega de equipe. Depois de fazermos nossa parte, podemos acompanhar o desempenho das primeiras equipes a cada ponto de controle monitorado através do telão, com imagens dos atletas na liderança. O final costuma ser decidido na última perna, geralmente com os melhores atletas do ranking mundial fechando para as equipes favoritas. Naquele ano venceu a equipe finlandesa que tinha o francês Thierry Gueorgiou para fechar a competição. Ele iniciou a perna em segundo, mas passou o sueco Emil Wingstedt, da equipe norueguesa que liderava a disputa, num erro mostrado on-line para a plateia. Thierry ficou surpreso e feliz por ser anunciado como líder da prova ao entrar na área de chegada.

Esta é mais uma competição excelente, tanto para participar como para assistir, pois podemos acompanhar vários momentos da prova através do telão com as imagens da disputa entre as principais equipes concorrentes. Atualmente é possível acompanhar esta competição através da transmissão pela internet.  Ir ao ÍNDICE   

Manual do Orientista - Dica nr 92

 Dica nº  92: As competições no exterior são importantes.

O intercambio com clubes da Europa, ou a participação em competições como o O-Ringen 5 Days da Suécia, Campeonato Mundial da IOF, Campeonato Mundial Militar e outras competições internacionais são oportunidades incríveis para qualquer orientista do mundo. Vale a pena todo o esforço e investimento para realizar viagens como essas. É um investimento pessoal que, além de proporcionar momentos incríveis, nos permite ganhar experiência num nível muito superior ao que normalmente encontramos em nosso país. 
Além disso, sempre somos bem recebidos nas competições da Europa, podendo contar com excelentes organizadores e podemos desfrutar de boas oportunidades de passeios turísticos a locais muito interessantes. Em várias competições importantes para a Elite, e até mesmo no Campeonato Mundial da IOF, há percursos para os expectadores, nos mesmos mapas da competição oficial, em dias alternados. É importante sabermos inglês, para nos comunicarmos com mais facilidade, e devemos fazer inscrição dentro da categoria que estamos acostumados a competir. 


No Campeonato Mundial da IOF de 1991, na República Tcheca, eu participei do congresso de mapeadores e participei da competição paralela para os expectadores, já que naquela época o Brasil ainda não era membro da IOF. 
Foi muito bom assistir ao evento, juntamente com uma grande quantidade de orientistas de outros países que ali estavam para torcer por seus compatriotas. Vários grupos levando suas bandeiras e fazendo bastante barulho na chegada de cada competidor. Depois pude correr nos mesmos mapas do Campeonato Mundial. Cada percurso foi uma oportunidade para aprendizado, pois era a segunda vez que corria na Europa, e fui melhorando o ritmo a cada percurso. Adicionalmente tive a oportunidade de conhecer Praga, um destino turístico muito visitado na Europa. Essas são experiências sem comparação.

Manual do Orientista - Dica nr 91

 Dica nº 91: Ajuste fino do treinamento.

 
Próximo às competições importantes da temporada, é necessário fazer ajustes no plano de treinamento, como o aumento de volume e intensidade na semana anterior, e diminuição do volume na semana da competição, com a finalidade de atingir o melhor nível de condicionamento físico para aquele período.


Além desse tipo de cuidado com a preparação física, é necessário o ajuste fino das ferramentas de técnica de orientação.  Em termos práticos significa:
• Treinar em um ritmo forte que se aproxime da velocidade da competição sem que o orientista perca o controle da leitura do mapa.  
• Adicionar o elemento de competição.
• Não traçar percursos muito longos para que os orientistas tenham energia para correr em um ritmo forte e se concentrar ao mesmo tempo. É importante que eles se orientem corretamente.
• Adicionar distrações, para treinar a concentração.
O ideal na semana anterior de uma competição importante é ter a oportunidade de fazer treinamentos em áreas com terreno semelhante, e então implementar as dicas acima, para ter um treino mais produtivo.
A preparação para uma competição pode significar que o orientista:
• Treine preparações específicas antes, por exemplo, de campeonatos, um revezamento importante ou outra competição importante.
• Treine em tipos de terreno relevantes.
• Treine diferentes tipos de competição – revezamento, partida em massa, sprint, etc.
• Faça análise de escolha de rota, comparando com outros tempos.


Uma técnica é devidamente compreendida quando se torna automática e pode ser realizada sem tanta concentração. É um elemento importante que essas habilidades se tornem automáticas. Por exemplo, com as habilidades básicas, correr na floresta e ler mapas, verificar a direção quando cruza uma referência ou abordar o ponto. Quanto mais automático, mais preparados estaremos para o imprevisível. 
O técnico deve estar sempre preparado para voltar pelas diferentes etapas para repeti-las e reforçá-las ao notar que um orientista avançou muito rápido e não entendeu completamente uma ferramenta colocada no treinamento ou ainda não a tornou automática.

 

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6 de fev. de 2026

Manual do Orientista - Dica nr 90

 Dica nº 90: Partida nos últimos horários.

Os atletas que partem nos últimos horários têm algumas vantagens sobre os demais competidores que partem no início. Além da possibilidade de alcançar os competidores que saíram antes, em vários locais o capim fica amassado pela passagem de muita gente. Em determinados pontos, podemos encontrar marcas de capim amassado levando para o prisma, na rota de entrada ou saída dele. Em trechos da rota principal com capim muito alto, os primeiros atletas a passarem enfrentam mais dificuldade para passar; os que passam depois atravessam o mesmo local com mais facilidade. 

As passagens dos charcos também ficam mais facilitadas depois que vários competidores passaram. Outro aspecto positivo é a expectativa pelo resultado: os primeiros têm o tempo sendo comparado e batido com frequência; ao final restam poucos para fechar o tempo do vencedor. É melhor ainda quando há uma torcida, como a da Equipe da Força Aérea, para vibrar quando estamos chegando com tempo para “zerar” o percurso. Tive a oportunidade de presenciar isto várias vezes, justamente porque geralmente partia no final e o restante da equipe sempre ficava fazendo torcida. 


No CAMORFA de 2007, por exemplo, depois de chegar em quinto lugar no percurso médio, fui o último a partir no percurso longo e não perdi tempo numa rota que tinha capim alto, pois já estava com vários trechos de capim amassado levando até o ponto de controle, principalmente no início do percurso. Mas o determinante foi manter um ritmo forte até o final, e na comparação dos tempos parciais eu fiz tempo melhor que os demais competidores. Depois da última troca de mapa já havia uma grande expectativa por parte de meus colegas quando estava próximo de fechar o melhor tempo do Exército. Quando picotei o último ponto e corri pelo funil foi a maior festa, pois eu estava com tempo para zerar o percurso e meus colegas gritaram muito mesmo, foi muito emocionante! 

Fui o campeão daquele percurso e fechei com o segundo lugar geral. É ótimo para encerrar qualquer competição, poder chegar com a torcida vibrando, com a certeza de não haver mais ninguém para bater seu tempo naquele percurso.

 

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Manual do Orientista - Dica nr 89

 Dica nº 89: Em revezamentos é interessante partir primeiro.


A escolha da ordem num revezamento depende das características individuas de cada participante da equipe. Para quem não tem problemas para se concentrar numa partida em massa, é bom partir na primeira perna de uma prova de revezamento. É muito interessante a partida com bastante gente, apesar do tumulto inicial. Depois ocorre a dispersão em pequenos grupos, até que ao final da perna poucos permanecem juntos.  Na escalação do revezamento, geralmente colocamos o atleta mais rápido na primeira perna, o mais constante no meio e o mais experiente na última. 



Meu melhor resultado em revezamento foi no Campeonato Mundial de 1992, no Brasil, saindo na 1a perna. Eu estava em meu auge de preparo físico. Corri sem errar nenhum ponto e próximo aos pontos finais vi um atleta suíço bastante à frente. Ao chegar ao penúltimo ponto, encontrei o atleta norueguês Bernt Bjørnsgaard (medalha de prata no Mundial de Juniores naquele ano) e dali em diante a rota era comum até o final, atravessando diagonalmente uma área de pinheiros com galhos baixos. Nós corremos paralelamente, numa velocidade surpreendente, só se ouvia o barulho de galhos secos quebrando.

 Estávamos juntos ainda quando atingimos a estrada a 300 metros do ponto, que ficava a cerca de 100 metros do canto do bosque. Quando notei a intenção dele de contornar a vegetação, cortei direto pela diagonal que levava até o ponto. Com isso cheguei ao ponto primeiro e mantive a dianteira, fazendo a passagem do revezamento na frente dele. O competidor da Suíça foi o 1º daquela perna; fui o 2º e o norueguês 3º. Na foto do Barros saindo depois da passagem ainda pode ser visto o suíço que acabara de sair em nossa frente. 

No final aquela equipe da Noruega ganhou, com o campeão mundial Peter Thoresen fechando, e a equipe da Suíça foi a 2ª colocada. Nossa equipe fechou em 7º lugar, até hoje a melhor marca brasileira no revezamento masculino. Nunca corri tanto numa chegada, nem mesmo em corridas de rua.

Depois dessa ocasião, ainda tive a oportunidade de partir primeiro em algumas outras provas de revezamento, mas a mais interessante foi no Jukola Relay, na Finlândia em 2005, após a participação no campeonato Mundial Militar, pois uma partida em massa na orientação com mais de 1300 equipes participantes é inclível! É difícil manter a concentração com tanta gente, fora a dificuldade de correr à noite, onde temos pouca experiência, mas eu fui melhorando até a parte final do percurso, e cheguei a melhorar quase 200 posições em relação ao primeiro local de marcação de tempo parcial e fechei com o melhor ritmo médio de todas as corridas que fiz na Finlândia naquele ano.


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Manual do Orientista - Dica nr 88

 Dica nº 88: Use o fator emocional a seu favor.


Uma competição importante sempre gera uma grande expectativa. Mesmo após mais de vinte anos competindo ainda tinha dificuldade para dormir com tranquilidade na véspera de uma competição. É muito difícil ignorar e achar que é um dia comum, pois fugimos de nossa rotina e há uma grande estrutura voltada para a competição em curso. Devemos nos expressar sempre de forma positiva, o mais concretamente possível. A expressão "não pode ficar nervoso" faz recordar o nervosismo, enquanto que a frase "conserve a calma" sugere a imagem contrária. Todas as pessoas em volta geram um clima de expectativa, que envolve a maioria dos participantes. No meu caso, procuro direcionar esse clima de maneira positiva, usando o fator emocional como incentivo para correr mais. 

Até mesmo em corridas de rua já presenciei isto: os resultados em competição sempre foram melhores que em treinamentos ou seletivas, onde o clima emocional é diferente. É difícil controlar a expectativa antes do início da prova, mas a partir do sinal de partida tudo muda: o cérebro passa a comandar o corpo no modo de competição. O corpo passa a produzir hormônios diferentes que nos deixam num estado de excitação que permanece até algum tempo depois de terminarmos a competição. Em alguns outros esportes ocorrem situações semelhantes, onde a atividade física passa a ser mais intensa que a costumeira, de acordo com um impulso que só acontece em competições. É um tipo de reação quase que instintiva, de acordo com o estímulo do momento. E podemos direcionar essa excitação de maneira positiva, melhorando o desempenho em competição. 

O autocontrole é muito importante para mantermos o nível de excitação em nível adequado de modo a mantermos um desempenho físico excelente sem atrapalhar nossa concentração. Eu estou na linha de partida e agora é que eu vou executar da melhor forma e dar o meu melhor. No campeonato nacional ou mundial, muitas coisas em torno da competição são diferentes, mas na realidade, ao realizar minha corrida, é muito parecido com uma competição normal. Minha técnica, a minha velocidade e meus pensamentos estão totalmente concentrados na tarefa que vou realizar. Minha técnica é automática, baseada em meus reflexos, enquanto a minha concentração e motivação são totalmente focadas na execução da corrida. Eu só penso no presente e no futuro próximo. Atrevo-me a ser um vencedor!

Alguns atletas conseguem treinar próximo ao nível de competição, mas para mim apenas o clima emocional de uma competição tem efeito positivo na obtenção de melhores resultados, tanto em corridas de fundo quanto na orientação. 


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Manual do Orientista - Dica nr 87

 Dica nº 87: Faça contato com orientistas de outros clubes.

Orientista sozinho tem mais dificuldades para treinar. Quando não temos um clube de orientação funcionando, precisamos nos unir a orientistas de clubes ou grupos de outras cidades. No Rio de Janeiro era comum alguns quartéis do Exército separarem uma equipe para treinar para a competição de orientação da brigada correspondente. Meu amigo Neir Braga da Silva, também da Equipe da FAB, teve a ideia de organizar os treinamentos de modo a ter sempre um montador de percursos diferente a cada semana, utilizando as conduções disponíveis de modo mais otimizado, onde quem não tinha viatura podia ir de carona, possibilitando treinamento semanal de março até setembro, envolvendo até as equipes dos Fuzileiros Navais, tanto na participação quanto na montagem de percursos. Não era necessário um controle como em eventos comuns: após um contato prévio, o traçador da semana montava o percurso e entregava os mapas para cada equipe, onde o responsável de cada equipe controlava a partida de seus atletas como achasse melhor, marcando o tempo separadamente. Cada equipe fazia seu treinamento e quem estivesse sem equipe colocava-se no controle de tempo de uma equipe qualquer. Num mesmo treinamento participavam até equipes que seriam adversárias em competições próximas. Este movimento foi chamado de “Se Orienta Rio”, e funcionou por vários anos. 

Uma característica comum nesses eventos foi a simplificação da estrutura do treinamento, facilitando o trabalho dos organizadores e assim possibilitando que eles acontecessem com mais frequência. Era comum ocorrerem treinamentos com prismas descartáveis, feitos de cartolina e amarrados com barbante, onde havia o número do ponto de controle e um código aleatório: “1F”, “2F” ou “3F”, correspondente ao número de furos a ser marcado no cartão de controle. Assim não era necessário o uso de picotadores, cada atleta marcava seu cartão de controle com um alfinete, de acordo com o indicado no ponto de controle. Havia apenas o trabalho de colocar os prismas descartáveis antes de iniciar o treinamento.

Em outros estados têm acontecido os campeonatos regionais, e até competições municipais em alguns locais com alguns clubes na mesma cidade, geralmente com estrutura mais simples que o campeonato estadual, mas com boas possibilidades de treinamento entre os clubes de cidades mais próximas. Essas iniciativas são importantes para a o aperfeiçoamento dos novatos, como uma continuidade do trabalho dos clubes. 


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Manual do Orientista - Dica nr 86

Dica nº 86: Nem sempre as coisas ocorrem como planejado.


Cometer erros é muito comum na orientação. Lamentamos quando erramos muito em um ponto de controle e perdemos aquele percurso, jogando por água abaixo um bom resultado numa competição importante. Apesar de nossas expectativas, nem sempre as coisas ocorrem conforme o planejado. No CAMORFA de 1990, meu principal concorrente era José Anilton Oliveira Hennig, da Equipe do Exército. No primeiro percurso ele saiu logo depois e me alcançou no 1º ponto, depois de um erro meu. Corremos até o final próximos um do outro, algumas vezes fazendo rotas diferentes e nos encontrando novamente logo adiante. Mas o pior para mim não foram os 3min de diferença no tempo, pois eu seria o 2º colocado e a disputa continuaria no dia seguinte. Em um dos pontos de controle, quando eu estava logo à frente dele, o picotador virou na minha mão e não marcou direito o cartão – naquela época os picotadores ficavam pendurados ao prisma, e não em suportes como atualmente. Na pressa de sair para deixar o Anilton marcar, olhei o cartão de controle e achei que a marcação estava boa, seguindo normalmente o restante do percurso. Para minha surpresa, após a chegada fui desclassificado por falha de picote, mesmo tendo sido anotada minha passagem, junto com outro atleta, pelo controlador de ponto. No dia seguinte eu zerei o percurso e o Anilton errou um ponto, perdendo muito tempo e a disputa do título. O campeão no final foi o Otávio, que fez o segundo melhor tempo do 2º percurso, mesmo tendo cerca de 10min a mais na soma dos dois percursos – meus tempos foram 5min melhores em cada dia. Depois desse evento, só fui ser campeão do CAMORFA novamente em 1999, pois mesmo estando sempre entre os três primeiros, não era fácil vencer em dois percursos seguidos, mas nunca desanimei de continuar tentando.

Na organização de eventos nem sempre as coisas ocorrem conforme o planejado. Para que tudo saia dentro dos horários previstos, é necessária uma boa coordenação das atividades, onde o pessoal envolvido saiba exatamente o que fazer e quando cada tarefa deve estar pronta. Podem ocorrer alguns atrasos quando temos poucas pessoas no apoio, ou quando as tarefas não são feitas no momento certo. Na maioria dos eventos que trabalhei, conseguimos que a partida começasse no horário previsto, mas algumas vezes houve atraso na montagem das barracas na partida, ou algum outro imprevisto, quando os horários não foram controlados adequadamente. Alguns eventos nacionais merecem mais atenção aos detalhes da organização, mas o principal para tudo correr bem é ter uma equipe de apoio com pessoal qualificado, para que tudo seja montado conforme o previsto e não ocorram atrasos na partida ou demora na entrega de premiação. Outro detalhe importante é colocarmos pelo menos duas pessoas para cada tarefa, assim uma pode conferir o trabalho da outra, diminuindo as possibilidades de erros. Mesmo que pareça desnecessário, quando trabalhamos com pessoas experientes, a supervisão de todas as tarefas é importante. 

Numa etapa de campeonato estadual, eu tinha pedido ao organizador que colocasse mais alguém para me ajudar na confecção dos mapas e colocação dos prismas, mas não fui atendido. Procurei fazer o melhor possível, mas um erro passou sem ser notado, por falta de revisão. Eu tinha alterado um ponto de controle da categoria Elite, mas não passei a mudança para o mapa matriz, que ficava num arquivo diferente. Tive bastante dificuldade para imprimir todos os mapas sozinho e colocar todos os prismas a tempo, mas cheguei à área de partida meia hora antes do horário de partida do primeiro competidor, com o pronto do percurso. Para minha surpresa o pessoal de apoio não estava pronto para iniciar a prova no horário previsto. Tive que ajudar também na organização da área de partida para que o evento tivesse início, já com atraso. Mas o pior para mim foi quando chegaram os primeiros atletas da Elite, sem ter encontrado um dos pontos de controle. Somente naquele momento fui perceber meu erro, havia feito uma mudança no percurso elite que não passei para o mapa matriz, mas era tarde demais para corrigir. Depois que todos correram, fui recolher todos os pontos, sozinho novamente. Lembro-me de ter chorado depois de recolher o prisma que estava no local errado; tinha sido a primeira vez em mais de seis anos montando percursos que um prisma estava colocado errado, e foi a única vez que isto ocorreu comigo numa competição importante. 

Situações semelhantes podem ser evitadas quando temos várias pessoas trabalhando em equipe, ajudando e verificando o trabalho dos outros. Nos eventos grandes devemos colocar etiquetas marcando o local dos prismas com certa antecedência, porque às vezes é um orientista menos experiente que ajuda a colocar os prismas. Em uma competição mais recente, onde não tive tempo de colocar etiquetas, fiquei na dúvida ao questionar meu auxiliar sobre o local do prisma; mas antes da partida dos primeiros eu fui verificar e o prisma estava a 30 metros do local previsto, mas tive tempo de reposicionar e evitar problemas.


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Manual do Orientista - Dica nr 85

 Dica nº 85: Competições intermediárias. 

É difícil manter o condicionamento físico ideal ao longo de toda temporada. Normalmente, quando estamos numa fase muito boa de treinamento, é bom definir as competições principais, colocando as demais como secundárias. 

No primeiro Campeonato Brasileiro da CBO em 1999, não fui muito bem na primeira etapa em Guarapuava-PR, fazendo o 6o lugar, depois de ter ficado dois meses sem treinar direito após o nascimento de meu segundo filho. Fui o campeão da 2ª etapa em Itu-SP, mas o percurso foi anulado por causa de problemas com a organização da prova. Com isto não estava muito animado para competir na 3ª Etapa em Pelotas-RS, ainda mais tendo que viajar cerca de 26 horas de ônibus. Mas no mês seguinte haveria o Campeonato Sul-Americano em Florianópolis-SC, com um percurso médio e um longo. Devido às características dos percursos no Sul, resolvi participar da etapa em Pelotas, principalmente pela oportunidade de treinamento. A viagem foi desgastante, a noite anterior foi terrível devido aos mosquitos no alojamento, mas o treinamento foi bom, e ainda fechei com o 4º lugar na etapa e no Campeonato Brasileiro. 

Aquele “treinamento” realmente fez diferença adiante, pois entrei no percurso médio do Sul-Americano com confiança, zerando com um tempo muito bom, cerca de 10min à frente dos principais concorrentes. Como o resultado final era por soma de tempo, tive uma certa folga para o percurso longo, e apesar de perder bastante tempo num ponto, ainda consegui fechar com tempo suficiente para ser o campeão, pela segunda vez, do Campeonato Sul-Americano. 

Devemos planejar a temporada considerando a competição principal e procurando participar de boas competições intermediárias, principalmente quando tiverem alguma afinidade com a competição alvo.


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Manual do Orientista - Dica nr 84

Dica nº 84: O condicionamento físico é muito importante. 

Na orientação a nível internacional o condicionamento físico é fundamental para o sucesso. De igual maneira, em todos os níveis de competição, é o ponto comum e algumas vezes o diferencial dos atletas vencedores na maioria dos eventos. A própria demanda do esporte, com terreno variado e acidentado exige uma preparação e manutenção do condicionamento físico, para garantir o sucesso em uma temporada ou ao longo da carreira.

José Luiz Cogo, que venceu a maioria das competições que participou de 1995 a 1998, e Leandro Pereira Pasturiza, que venceu vários campeonatos de 2005 a 2015, além de errar pouco, fizeram boas temporadas por ter um bom condicionamento físico, zerando percursos até 10 minutos na frente do segundo colocado. 

Mas foram batidos por concorrentes em condições físicas melhores em certas competições, ou quando cometiam algum erro grande num percurso. Uma das vantagens principais que tive a meu favor também foi o condicionamento físico, quanto era superior a de meus adversários. Mesmo encarando adversários tão bons, em diferentes épocas, eu conseguia terminar em segundo ou terceiro lugar, e eventualmente ganhar um percurso, também devido ao bom condicionamento físico. No Campeonato Sul-Americano de 1997, em Curitiba-PR, quando ainda era disputado em percurso único, meu principal adversário foi José Otávio Franco Dornelles, conhecido pela excelente qualidade técnica, mas com preparo físico mediano, quando comparado aos atletas mais jovens que o venciam nos percursos. Pelo menos em duas outras ocasiões anteriores eu já havia passado por ele durante um percurso, ultrapassando-o com facilidade, devido ao meu ritmo de corrida mais veloz. No sorteio da ordem de partida saí logo depois dele, alcançando-o perto da metade do percurso e passando com certa facilidade numa subida longa. Abri uma boa distância, mas na parte final do percurso errei a entrada de uma trilha, indo mais adiante fora da rota e perdendo algum tempo até voltar, permitindo que ele passasse à frente novamente. Após marcar o ponto seguinte, vi o Otávio cerca de 300m à frente. Corri o máximo possível pelos últimos pontos até a chegada, chegando depois dele, mas com tempo suficiente para ser o campeão. Entre atletas de qualidade técnica semelhante, o condicionamento físico é um fator decisivo no resultado final. Quando erramos um pouco, o condicionamento físico pode ser decisivo contra outro atleta que erra menos.


Manual do Orientista - Dica nr 83

 Dica nº 83: O trabalho do técnico de orientação.


Numa palestra com Kent Tornqvist, que foi técnico da equipe militar da Suécia por vários anos, além de alguns aspectos interessantes sobre o treinamento mental, aprendi que o trabalho do técnico é muito importante e de bastante ajuda, mas apenas vai direcionar o treinamento e dar estímulos positivos a seus atletas. A motivação é uma característica interior, mesmo que tenha sido originada por um estímulo externo. O sucesso do atleta depende quase que exclusivamente do empenho pessoal, principalmente na fase de preparação. A vontade de vencer os desafios é que leva o atleta a superar seus próprios limites, superando consequentemente os demais competidores. O técnico ajuda muito, mas só vai ter um atleta campeão se este atleta for bastante motivado para seguir o treinamento previsto e melhorar progressivamente seu condicionamento físico e técnico. 

Nunca há só um caminho ou única verdade que conduz ao sucesso. Os caminhos até lá são frequentemente muito diferentes. Os indivíduos são únicos, ninguém é igual a ninguém. Cada pessoa tem diferentes talentos herdados, cresceu em seu próprio ambiente e tem um ponto de partida diferente na rota do sucesso. 

O trabalho do técnico é direcionar a energia que está armazenada em cada atleta. Se o técnico puder ajudar o atleta com a inspiração, envolvimento, entusiasmo, motivação e autoconfiança, então existe uma boa chance de que essa energia seja liberada de forma positiva e poderosa.

Encorajar o atleta, ser sensível com ele, fazer o atleta pensar por si mesmo, criar entusiasmo na equipe, deixando o indivíduo ser único, vendo as possibilidades, fortalecer a autoconfiança e a autoestima são algumas das qualidades que orientistas de sucesso identificam como importantes para um técnico.

Um trabalho importante para um treinador é garantir que a técnica de orientação melhore. O técnico prepara os treinamentos e planeja as competições alvo, mas cada atleta vai ter um desempenho de acordo com sua motivação e progresso no treinamento. O técnico programa os objetivos próximos e estimula seus atletas a buscarem um desempenho excelente, mas cada um tem seus objetivos particulares e só poderão atingi-los de acordo com o empenho próprio, às vezes limitado por características individuais. 

Se ambos, o treinador e o atleta, têm objetivos comuns é mais fácil de entender um ao outro e isso pode ajudar a construir uma boa relação entre líder e atleta. Se as metas não são compartilhadas, é muito mais difícil compreender um ao outro, o que pode levar a uma má relação entre o atleta e o técnico. Devemos nos lembrar disso ao tentar ajudar um atleta na liberação de energia necessária para se esforçar para fazer o seu melhor. Isto é especialmente verdadeiro quando enfrentamos fracassos e quando as coisas não estão funcionando como previsto. 

O objetivo principal do técnico é que todos seus aprendizes melhorem o desempenho com o treinamento, independente dos resultados absolutos alcançados. Não são apenas as medalhas conquistadas que trazem satisfação ao técnico. Do tempo que trabalhei como técnico, minha satisfação maior foi ver o desenvolvimento, mesmo que pequeno, daqueles novatos que treinaram comigo. 

O técnico trabalha com atletas de vários níveis, e o objetivo principal é que todos progridam. O aprendizado dos iniciantes é tão importante quanto o desenvolvimento e as vitórias dos mais experientes. É gratificante ver um jovem orientista, que tinha dificuldade até para orientar o mapa, completando todos os pontos de um percurso, isto não tem preço.


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Manual do Orientista - Dica nr 82

Dica nº 82: Não mude sua tática sem necessidade.


No Brasil é ainda comum encontrarmos uma figura mitológica da orientação chamada de “carneiro”, conforme descrita em nosso Glossário (Anexo B) como aquele competidor que vai atrás de outro orientista, mesmo não sabendo exatamente onde está indo. Geralmente quando encontramos outro orientista que perdeu tempo em algum ponto, mas sabemos que tem um bom nível técnico e de corrida, não damos importância e continuamos com nossa navegação normal, e até pedimos para ele ajudar a puxar o ritmo ou encontrar algum prisma que esteja menos visível, ao nos aproximarmos do ponto de controle. Teve uma competição que eu “zerei” o percurso com a ajuda de um carneiro de outra equipe que corria bem, na verdade ele corria melhor que eu, mas se orientava menos; eu o alcancei no primeiro ou segundo ponto e seguimos juntos até o fina. Eu mantive a concentração e pedi para ele ajudar a manter o ritmo de corrida e ficar atento ao chegar nos pontos de controle; talvez se estivesse sozinho não correria tão forte a ponto de fazer o melhor tempo, pois tive confiança de correr forte até o final do percurso, usando as táticas adequadas a corrida mais veloz.

Não vale a pena perdermos a concentração ou mudar nossa estratégia de corrida por causa de um carneiro. Certa vez, quando competi avulso num Campeonato do Comando Militar do Exército, alcancei outro atleta avulso no primeiro terço do percurso. Notei que ele corria bem, indo comigo até o terço final. Quando escolhi uma rota diferente, ele seguiu a rota mais fácil; eu perdi tempo e ele tirou quase toda a diferença de tempo ao ser alcançado. 

No dia seguinte estava previsto ele partir logo depois de mim. Resolvi trocar a ordem de partida com meu colega de equipe, passando a sair depois daquele adversário, garantindo minha vitória caso o alcançasse. Aconteceu o previsto: alcancei os dois no primeiro terço do percurso, meu colega e o adversário. Na metade do percurso resolvi testar se o colega do Exército estava concentrado no mapa ou se estava encarneirando: numa rota longa, ao chegar numa bifurcação, peguei propositalmente a direita, quando devia entrar na esquerda. Passei cerca de 50m e ele seguiu atrás. Quando parei, ele passou por mim e não entendeu direito o que havia acontecido, olhando o mapa para se orientar. Fiz meia-volta, voltando em direção à bifurcação, olhando a mata ao lado, e cortei caminho quando a mata ficou menos densa, faltando pouco para chegar na trilha correta. Ao passar pela mata, vi que ele fez o mesmo, mas entrou antes, numa parte mais larga e mais densa. Com isso pude abrir distância e ele foi chegar mais de 5min depois de mim e de meu colega de equipe. 

Mas fiz isto porque era num treinamento, nunca fiz algo semelhante em competição oficial, apesar de ser comum alcançar vários outros competidores, pois na maioria das vezes os outros corriam menos e conseguiam seguir junto apenas alguns pontos de controle e acabavam ficando para trás.


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Manual do Orientista - Dica nr 79

Dica nº 79: Diferenças entre as áreas de diversas regiões.


As características de relevo e vegetação variam muito de uma região para outra. A experiência conta muito para ter sucesso em áreas diferentes. Para cada tipo de área demanda uma variação diferente de técnicas que são mais comuns. Quando nos familiarizamos a cada área, torna-se mais fácil a aplicação dessas técnicas. Além da aplicação das técnicas, passamos a ter mais facilidade de correr em áreas familiares. Quanto mais treinarmos em áreas diferentes, mais facilidade teremos para correr em áreas novas. 

Os atletas internacionais programam treinamentos nos países onde terão competições importantes, para se adaptarem melhor ao tipo de orientação da região. Também é possível treinar em países vizinhos, com mesmo tipo de relevo. Por exemplo, para competir na Finlândia, os russos podem treinar na região de São Petersburgo, que faz fronteira com o sul da Finlândia e apresenta o mesmo tipo de terreno. É muito comum para os atletas de elite de nível internacional participarem de campos de treinamento nos países que organizam o campeonato mundial daquele ano.



Para os brasileiros, há bastante variação de um estado para outro. Mas nossas áreas são muito diferentes da Europa. Encontramos certa semelhança das áreas reflorestadas da Região Sul do Brasil com algumas áreas da Bélgica, Holanda e República Tcheca, principalmente com relação ao uso predominante de certas técnicas. Mas há muita diferença no relevo e vegetação, principalmente em relação aos países nórdicos, que possuem relevo muito acidentado e detalhado, com quantidade muito maior de pedras. Noruega, Suécia e Finlândia apresentam regiões com diferenças significativas de relevo e vegetação, áreas bem diferentes umas das outras, mas nada parecido com o que temos no Brasil. 

Para ter sucesso internacionalmente, é necessário correr nas provas europeias que fazem parte do ranking internacional, como fazem todos os atletas internacionais. Para ter sucesso nacional, também é necessário correr nas várias competições do ranking nacional, em diferentes estados e diferentes terrenos. Outra questão importante é o condicionamento físico específico quando se trata de regiões com elevações mais altas, que exigem mais tempo de treinamento em subida para adaptação a uma exigência física maior nos percursos. A experiência em diferentes tipos de terreno ajuda muito, além de ser fundamental o condicionamento adquirido ao longo de uma temporada com vários treinamentos e competições.


Manual do Orientista - Dica nr 80

Dica nº 80: Mantenha a concentração com outros na rota.


Nas competições nacionais, acontece de atletas serem alcançados por orientistas mais experientes e com condicionamento físico semelhante; alguns têm a tendência de perder a concentração no mapa, preocupando-se apenas em não perder o outro de vista. Não há problema em seguir a mesma rota, desde que continue concentrado no mapa. Nos Campeonatos Mundiais, eu não costumava acompanhar os atletas que me alcançam, principalmente porque corriam muito mais rápido, mas é possível fazer a mesma navegação por alguns pontos. 

No percurso longo do Campeonato Mundial na Holanda, quando estava na rota do 5º para o 6º ponto, fui alcançado pelo atleta polonês que saíra 4min depois de mim. Antes disso estava mantendo meu ritmo normal de corrida com o frequencímetro marcando cerca de 165bpm, minha frequência de “cruzeiro”. Aumentei o ritmo para o acompanhar e a pulsação passou para a faixa de 175 a 180bpm, já passando do meu limite de limiar anaeróbico. Sabia que não conseguiria manter aquele ritmo por muito tempo, indo próximo apenas até a 1a troca de mapa. Daí reduzi a velocidade e deixei abrir distância aos poucos, mantendo minha atenção ao mapa. Após mais alguns pontos perdi o contato visual, mas continuei no meu ritmo normal, seguindo minha orientação, finalizando o percurso num tempo muito bom, o melhor entre os brasileiros. É bom conhecermos nosso ritmo de corrida, pois não adianta forçar além de nossa capacidade e depois acabar tendo que andar quando entrarmos em fadiga.

Na mesma competição, após a segunda troca de mapa, alcancei um atleta turco ao me aproximar do ponto de controle seguinte. Peguei o ponto antes dele, que passou a correr à minha frente em seguida. Para o próximo ponto notei que ele começou a desviar para a direita; deixei ele ir e fiz minha navegação, achando o ponto primeiro. 

E continuou assim por mais alguns pontos, ele desviando a rota e eu marcando primeiro, depois ele seguiu para outra variação, em direção totalmente diferente. O importante foi que não perdi a concentração na navegação que estava fazendo e não perdi tempo como ele. Continuei minha orientação e cheguei sozinho na área do ponto seguinte, sendo alcançado por um atleta estoniano, que ainda estava no segundo mapa, vindo de outra variação e achamos o ponto juntos. Segui fazendo minha navegação, observando o que ele fazia até o ponto comum antes da troca de mapa; ele seguiu para a troca de mapas e eu fui para os 3 últimos pontos antes da chegada. Por curiosidade, após a chegada verifiquei que o tempo do turco foi bem mais alto que o meu e o estoniano não completou o percurso por algum motivo qualquer. Em percursos com troca de mapas e com variações, precisamos estar atentos ao nosso percurso e navegação, independente do que os outros atletas estejam fazendo. É muito comum encontrarmos atletas com variações diferentes que passam na mesma rota, mas que estão seguindo para pontos diferentes, por isso não podemos nos deixar influenciar, mantendo nossa concentração no mapa. 

Em uma prova de revezamento na Áustria, correndo na pista com os técnicos e convidados, perdi a atenção ao mapa do segundo para o terceiro ponto onde as rotas cruzavam-se, indo na direção para onde seguiam vários outros atletas, eu estava marcando a distância mas comecei a perder contato com os detalhes do mapa. Ao chegar a distância prevista encontrei outro ponto de controle! Notei então que havia desviado para uma posição abaixo de onde deveria ir; fiz a correção para o lado onde deveria ter seguido e felizmente não estava longe do ponto de controle correto, achei o ponto em cerca de 30 segundos. Não foi uma grande perda de tempo, pois neste mesmo percurso haviam alguns pontos de controle que estavam posicionados em locais mais complexos e que exigiram mais atenção. Por isso redobrei a atenção dali em diante. Na última parte do percurso notei que dois colegas brasileiros que corriam mais estavam descendo para o ponto de espectadores na minha frente, mas havia ainda uma perna menor depois de passar pela arena da chegada. Fui com atenção quando notei que havia um ponto de controle numa área de verde claro com várias reentrâncias; busquei um ponto de ataque nítido, fui com mais cautela com a bússola e achei o ponto de primeira. Ao chegar fiquei surpreso ao chegar na frente dos outros brasileiros e do técnico da Bélgica, que eu havia visto perto do ponto de espectadores. Como dizia meu técnico Uderci: “Quem não erra, ganha!”


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Manual do Orientista - Dica nr 78

 Dica nº 78: A importância da atitude.


Ao entrar numa competição temos que ter a atitude positiva de ser um oponente à altura de nossos adversários. O principal desafio da orientação não está nos concorrentes, mas em completar o percurso traçado sem cometer erros, no menor tempo possível. Nosso foco não deve estar nos adversários, mas em nós mesmos, em superar nossas próprias limitações. Mesmo que nos consideremos fracos diante dos adversários, precisamos deixar de lado esta ideia e concentrarmos apenas em fazer o melhor possível no percurso, acreditando em nosso potencial. Não importa que o adversário esteja com melhor condicionamento físico e técnico, o que importa é fazermos o melhor com nosso condicionamento físico e técnico. Nossa atitude é mais importante que os adversários. Se nos importamos apenas em vencer o adversário, poderemos ficar frustrados quando não conseguimos a vitória, deixando de ver o que de positivo fizemos, vencendo limitações e dificuldades que muitas vezes nossos adversários não tiveram. Em alguns campeonatos consegui ser o 1º ou 2º logo no primeiro percurso, garantindo uma medalha para marcar aquele ano, mas depois não terminei tão bem no dia seguinte. Em vários outros campeonatos, aconteceu de cometer grandes erros no 1º percurso ou ter outros problemas que me fizeram chegar após o 5º lugar. O objetivo a partir daí é superar o dia anterior, deixando-o para trás e fazendo o melhor possível no dia seguinte. Na maioria das vezes que ocorreu algo semelhante, eu consegui chegar entre os três primeiros no 2º percurso. Meu objetivo de fazer um percurso excelente foi atingido. 

Cada percurso é totalmente diferente do outro. Nos campeonatos que venci em 1999 e 2001, aconteceram fatos semelhantes: em ambos fui o quarto colocado no 1o percurso, a mais de 4min do primeiro colocado. Para o 2º percurso saí disposto a tirar a diferença de tempo, correndo muito bem, concentrado em fazer o melhor possível. Por causa desta atitude, fui o zerador do percurso, passei os que estavam à frente e fui campeão geral. Ser campeão é importante, mas posso ser vencedor mesmo não sendo o primeiro colocado numa competição. Mesmo não conseguindo ser o campeão geral, a medalha pelo excelente percurso serve principalmente para marcar a vitória depois de um dia não tão bom. É uma vitória pessoal, antes de ser uma vitória sobre os demais concorrentes.

Você não pode mudar percursos mal traçados, clima frio e chuvoso, os primeiros horários de partida, terreno acidentado, áreas verdes densas, mapa ruim e assim por diante, mas cada orientista pode mudar sua atitude diante dessas circunstâncias. Se você compete em locais novos, não pode contar com as mesmas condições de locais conhecidos, mas pode aprender a aceitar e gostar da situação e até ver como uma vantagem pessoal.

A importância da atitude pode ser expressa da seguinte maneira: numa escala de 1 a 5, de muito fraco para muito forte, classificamos o talento natural, capacidade atual e atitude. Estes fatores combinados levam ao resultado final, a performance. 

(Talento natural + Habilidade atual) x Atitude = Performance

Num primeiro exemplo temos uma pessoa com talento natural normal, que é muito habilidosa em sua área, mas uma atitude fraca para com a tarefa. No segundo exemplo, uma pessoa com talento natural normal, habilidade normal, mas uma atitude muito forte para com a tarefa.

Exemplo 1: ( 3 + 4 ) x 2 = 14

Exemplo 2: ( 3 + 3 ) x 5 = 30

Estes exemplos mostram que a atitude dos esportistas de elite é um dos fatores mais importantes para atingir o sucesso.

Charles Swindoll falou assim sobre a atitude: “Quanto mais eu vivo, mais me dou conta do impacto da atitude na vida. Atitude para mim é mais importante que os fatos. É mais importante que o passado, que educação, que dinheiro, que circunstâncias, que falhas, que sucessos, o que as outras pessoas pensam ou dizem ou fazem. É mais importante que aparências, talentos ou habilidades. Eu faço ou quebro uma companhia ... uma igreja ... um lar. O mais notável é que todo dia temos uma escolha com relação à atitude que iremos abraçar naquele dia. Nós não podemos mudar o inevitável. A única coisa que podemos fazer é tocar com a única corda que temos, e esta é nossa atitude. Estou convencido que a vida é 10% o que acontece comigo, e 90% como eu reajo a ela. E então é com você – nós somos responsáveis por nossas atitudes”.


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