23 de fev de 2012

Manual do Jovem Orientista - Dica nr 100

Tivemos entre os participantes do Portugal O-Meeting de 2012 o brasileiro Ronaldo André Castelo dos Santos, que correu na categoria H21SE. Ele foi o último a completar os quatro percursos, quase três horas a mais que a soma do primeiro colocado. Eu dou meus parabéns a ele por seu feito! Ronaldo é um orientista que começou na universidade e que agora compete na Elite. Até para os demais orientistas brasileiros com melhor treinamento, ainda é difícil acompanhar o ritmo da Elite internacional. Eu constatei isso há mais de 20 anos atrás, quando passei por uma situação semelhante, em minha primeira competição na Europa! Escrevi na dica que encerra o "Manual do Jovem Orientista" sobre a experiência mais marcante de minha carreira de orientista. A parte final dessa dica foi reportada na Revista Skogssport de 1990. 

Dica n° 100 - Nunca desista!

Em 1990 participei dos Cinco Dias de Orientação da Suécia. Fui o único brasileiro a participar naquele ano, e fiz a Clínica para Atletas de Elite do O-Ringen. Um fato curioso foi que, além de participar dos 3 dias da clínica, ainda corri na categoria H21E, onde todos os percursos tinham mais de 10km. Apesar do bom preparo físico, o 5º dia de competição era na realidade o 8º dia de percursos seguidos! Nos quatro percursos anteriores eu tive as dificuldades normais dos percursos, com alguns erros não muito grandes, sendo que nos primeiros dias tinha feito tempos próximos a 1h 51min.  

Naquele último dia a ordem de partida era de acordo com o resultado dos dias anteriores, por isso fui um dos últimos a largar. Aconteceu que no meio do percurso comecei a sentir muito cansaço físico e mental. Eu partira na frente de um britânico (até então eu era o penúltimo) que me alcançou lá pelo ponto 6, mas não tive disposição para dar combate, e logo desisti de seguir com ele. Lembro-me que sentia o calor daquela tarde e que a sensação de cansaço era realmente grande lá pelo décimo ponto de controle. Depois de pegar o ponto 11, o ponto 12 ficava a cerca de 200m, tirei um azimute rápido na bússola de dedo, mas saí mais à esquerda do ponto. Encontrei um prisma e notei logo que não era o meu, fiquei então girando em círculos, tentando achar meu prisma, o que não foi a melhor tática. Devido ao cansaço, já estava sentindo dificuldade para raciocinar com clareza. Depois de muito tempo, resolvi voltar ao ponto anterior, e por incrível que pareça ainda reconheci o caminho de volta! Quando voltei ao ponto 11, olhei para o relógio: haviam se passado mais de 30 minutos, só naquele erro!!  Já comentei que voltar à referência anterior sempre é a melhor opção quando erramos o azimute, e gastei muito tempo por não fazer isso logo, para aprender essa lição.  Tirei o azimute novamente e fui caminhando na direção certa – e bati direto do prisma correto! Depois disso ainda havia uma pernada com mais de 1 km, mas fiz com cuidado, sem errar, depois dessa pernada já podia ouvir os alto-falantes da área de chegada, e foi uma sensação de grande alívio quando me aproximei do funil de chegada, para fechar o percurso com 2h 44min, dentro do limite permitido de 3 horas!

Naquele ano havia cerca de 20.000 competidores em cada dia. Nos dias anteriores o que impressionava era a grande multidão em volta da chegada, com muito barulho e o som dos alto-falantes. Mas aquela chegada foi bem diferente, havia poucas pessoas e o pessoal da organização estava desmontando tudo. Quando entrei no funil de chegada, após marcar o último ponto, o único som que se ouvia era o de martelos despregando coisas, mas que foi substituído por palmas e alguns gritos de saudação, quando o alto-falante anunciou a aproximação de um orientista em especial: o último a chegar de todo o evento! 

Foi a maior emoção que já senti em toda minha carreira de atleta! Quando a gente “zera” um percurso, a adrenalina está a mil, e a alegria é muito grande, mas quando se está esgotado, aquelas palmas são a compensação daquele orientista cujo único objetivo era completar seu percurso, e a satisfação é tão grande quanto a de ter sido campeão. Eu sempre me emociono quando lembro daquele momento, mais do que qualquer outro.


Um jornalista da revista Skogssport, da Federação Sueca de Orientação, tirou minha foto e escreveu um pequeno artigo sobre o final do evento. Ele contou no artigo que naquela tarde ficou à espera do último atleta daquele evento. Quando só faltava a minha chegada, ele perguntou ao árbitro de chegada se eu desistiria ou se estaria com todos os pontos marcados corretamente. “Ele nunca desiste” – disse o árbitro – observando os resultados anteriores daquela semana. Quando cheguei, às 16h e 21min, todos os picotes estavam corretos, eu completara todos os percursos, e o evento de orientação no O-Ringen 5 Days de 1990 estava encerrado.

Meus amigos suecos deram parabéns por eu ter sido o 65° colocado na H21E do O-Ringen, dizendo que não fui o último dos 90 que competiram, pois até o Jörgen Martensson havia desistido e não completou aquela competição. A principal lição que aprendi foi esta: que é muito importante não desistir e completar um percurso, pois estamos vencendo desafios que são muito difíceis. Estamos vencendo nossos próprios limites!



Um comentário:

  1. Tenho acompanhado em leituras todas as dicas do meu amigo FRANCO e sem dúvida se trata de um dos melhores trabalhos que tive a oportunidade de ver.
    As dicas são de suma importância para quem deseja realmente aprender com que sabe, por experiências vividas.
    parabéns e continue postando suas dicas pois estou aprendendo muito com elas!
    Sou uma pessoa privilegiada por conhecer um pouco de sua trajetória e ter participado junto em alguns de seus momentos no esporte orientação.
    Piau!!!
    Wladimir Sant'Anna - Ceará/BR - COFORT

    ResponderExcluir