24 de set de 2011

Manual do Jovem Orientista - Dica nr 10

Dica no 10: Aprenda através dos estágios necessários para adquirir novos hábitos ou habilidades.


O aprendizado da orientação passa por estágios diferentes, dependendo do enfoque que utilizamos. Uma boa comparação para o aprendizado está na incorporação de hábitos, através da prática do esporte. Os hábitos passam por quatro estágios antes de serem incorporados a nosso comportamento. Esses estágios são citados no livro “O Monge e o Executivo”, de James C. Hunter, e aplicam-se a qualquer área de conhecimento. Aqui estão adaptados para a orientação:


Estágio 1: Inconsciente e sem habilidade. Este é o estágio de todos que começam em qualquer esporte, onde ainda conhecem pouco a respeito da modalidade e de suas potencialidades pessoais, portanto sem interesse em praticar aquela atividade. Muitas pessoas, por desconhecimento, não têm noção dos benefícios ou do prazer que a prática esportiva pode trazer. É importante que os organizadores de eventos prestem atenção aos iniciantes, permitindo estímulos positivos para que estes tenham interesse em prosseguir aprendendo orientação.


Estágio 2: Consciente e sem habilidade. É o estágio onde nos interessamos pela prática da orientação e iniciamos nosso aprendizado. Temos a vontade, mas ainda temos pouco contato com as técnicas básicas ou pouca prática. Nossas primeiras experiências aumentam nosso interesse, mas ainda não dominamos as técnicas para o sucesso completo, cometendo erros grosseiros, às vezes por falta de conhecimento, mas principalmente por falta de atenção ao mapa. Aqui entra o trabalho dos clubes de orientação, ensinando as técnicas básicas em seus treinamentos, além de levar os participantes até as competições.


Estágio 3: Consciente e habilidoso. É o estágio onde nos tornamos experientes, após aprendermos todas as técnicas básicas e vivenciarmos uma boa variedade de competições em locais diferentes. É quando aproveitamos bem o aprendizado, com êxito completo, na maioria das vezes. Completamos todos os percursos, fazendo uso das técnicas e cometendo poucos erros, com uma boa concentração durante a navegação; o uso das técnicas passa a ser uma habilidade ou hábito. Neste nível participam aqueles que gostam de competir, participando de categorias mais difíceis conforme o tempo de treinamento.


Estágio 4: Inconsciente e habilidoso. É o estágio mais avançado, para aqueles que descobrem que a orientação é seu melhor esporte. Quando a prática é mais constante, não demoramos quase nada para tomar decisão, em qualquer parte do percurso. As ações são automatizadas, sendo quase inconscientes. Somos envolvidos pelo mapa e passeamos por uma área desconhecida como se estivéssemos num local familiar. Corremos em terreno irregular com a mesma facilidade que temos em terreno plano, sem nos preocuparmos onde pisamos, visando apenas os pontos de referência que vemos no mapa. É o estágio dos atletas da Elite, daqueles que treinam e competem com frequência maior, mas que pode ser experimentado algumas vezes por outros atletas experientes que treinam com mais constância.


Lembro-me quando fui fazer uma arbitragem na EEAr e conheci Cesar Augusto Fioravanti (campeão brasileiro – CAMBOR 2004), quando ele ganhou uma corrida rústica de 8km entre os alunos. Eu e meu amigo Neir Braga conversamos com ele sobre a possibilidade de experimentar a orientação na cidade de Santa Maria-RS, sua cidade natal e onde iria trabalhar em seguida. Ele estava no primeiro estágio, mas eu via nele um bom potencial para a orientação, pois tinha um perfil diferente dos corredores de rua comuns e gostaria que ele tivesse a oportunidade de experimentar a orientação.


Demorou cerca de dois anos para que Fioravanti viesse a uma convocação nossa, devido a problemas diversos. Depois de minha insistência, em 1999 ele participou de uma seletiva para novatos e foi o principal destaque. Por causa de contensão de despesas, não tivemos mais treinamentos naquele ano e ele foi direto ao campeonato sem o treinamento adequado. Logo no primeiro percurso do CAMORFA ele foi um dos últimos, chegou andando; eu que parti entre os últimos passei por ele no final, mas ele ficou animado ao assistir aquela competição, vendo o clima do evento, o esforço de todos os participantes. Naquele percurso eu havia perdido tempo num ponto e perto do final ainda pisei num buraco e bati o joelho numa pedra. Depois da chegada fiquei mancando e coloquei gelo sobre o local da pancada para diminuir o hematoma. Fiquei preocupado com a desvantagem de cinco minutos para o vencedor do primeiro percurso, mas no dia seguinte fiz um ótimo percurso, zerei a pista, tirei a diferença e ganhei aquele campeonato. Todos de nossa equipe festejaram muito, como é comum acontecer após bons resultados. Com a participação naquele evento, Fioravanti logo passou para o segundo estágio, ficou realmente interessado em praticar orientação e passou a treinar com José Otávio Franco Dornelles, e logo passou a competir melhor no Campeonato Gaúcho e no Campeonato Brasileiro. Dois anos depois ele estava no terceiro estágio, e no CAMORFA de 2001 foi o 7o colocado, conseguindo vaga para o Campeonato Mundial em Portugal. Nos anos seguintes pode-se dizer que passou para o 4o estágio, quando começou a vencer percursos com certa frequência, quando começou a vencer alguns percursos, aparecendo com frequência entre os primeiros, demonstrando que fazer um percurso com poucos erros era algo relativamente simples.


Exemplos semelhantes aconteceram com outros orientistas de destaque, e servem de estímulo para os novatos que ainda estão nos estágios iniciais. O esporte que praticamos deve tornar-se um hábito para nós, onde sua prática deixa de ter desconfortos e sofrimento, incorporando-se à lista de atividades que desempenhamos com facilidade e prazer. É claro que excelentes performances exigem muito esforço físico, mas o desempenho técnico depende mais da prática constante.


O treinamento constante também favorece a automatização dos movimentos, melhorando a mecânica da corrida e facilitando o deslocamento em terreno acidentado. As técnicas treinadas passam a ser mais facilmente aplicadas pela repetição dos treinamentos. Pelo treinamento contínuo é que atingimos o quarto estágio, realizando os percursos com habilidade e aplicando diversas técnicas de forma quase inconsciente, fazendo navegações complexas com grande facilidade.

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